Até quando, Senhor? - Habacuque 3.19


ATÉ QUANDO SENHOR? – HABACUQUE 3.19

Em meio as dificuldades da vida, o Senhor tem o alívio para a nossa aflição

O SENHOR Deus é a minha força, e fará os meus pés como os das cervas, e me fará andar sobre as minhas alturas.

         Este livro registra, em grande parte, as queixas do profeta Habacuque, que viveu no sétimo século a.C., numa época em que os babilônios estavam se tornando o Império mais poderoso daquela parte do mundo. Habacuque não entende como pode haver tanta maldade e injustiça em seu país. Ele também não entende por que Deus tolera os babilônios, um povo mal e cruel que ameaça conquistar as terras de outros povos. Será que Deus não se importa com tudo isso?

         Há uma maravilhosa mensagem de Deus por trás deste texto. Habacuque usa a corça (cerva) para expressar a benção que Deus pode lhe proporcionar. Antes, é preciso dizer em que situação Habacuque se encontrava. Habacuque 1.2,3 expressa a aflição do profeta, mas, ele soube a quem recorrer no momento de amargura. Habacuque sabia que podia lançar sobre Deus as suas ansiedades, pois Ele é o único que pode sondar os corações e mover o impossível.
A corça era um animal típico da região, e inspirado pelo Espírito de Deus, o profeta usa este animal como símbolo. Aprendamos as quatro características de uma corça para vivermos em comunhão com Deus.


1 - A CORÇA NÃO VIVE EM CONFINAMENTO

         A primeira característica deste animal é que ele não vive confinado em um só lugar. Ela procura seu alimento nos lugares mais distantes que seu faro indica. É preciso sabermos que por maior que seja o problema que estamos passando, nós não devemos reter nosso pensamento nele 24 horas por dia. É preciso saber que não devemos nos confinar em “pequenos reinos” que criamos como “meu casamento”, “meu trabalho”, “meu ministério”, “minha carreira”. Sem Deus, estes “pequenos reinos” podem se reduzir a pó com facilidade. Lancemos sobre Deus a nossa ansiedade, porque Ele é a nossa força e pode nos tirar do confinamento das coisas deste mundo, direcionando nosso olhar para aquele que levou sobre si as nossas enfermidades. Os problemas diários aparecem, mas nós temos a quem recorrer, e continuar caminhando em sentido a linda pátria celestial.

2 – AGILIDADE PARA ESCAPAR DOS PREDADORES

         Outra característica da corça, é a sua velocidade. A corça é veloz e não pisa em falso, por isso escapa facilmente de seus predadores. Após depositar a vida diante de Deus, Ele é capaz de fazer os nossos pés como os da corça, nos tornando confiantes de que as investidas do tentador virão para nos destruir, mas sempre haverá um escape da parte de Deus. Jesus disse: “Tenho-vos dito isto, para que em mim tenhais paz; no mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo, eu venci o mundo” (Jo 16.33). É somente estando em nosso salvador que venceremos as adversidades, confiando e confessando, sempre haverá um escape da parte de Deus para aqueles que o ama.

3 – A CORÇA É CAPAZ DE SENTIR O CHEIRO DE ÁGUA A QUILÔMETROS DE DISTÂNCIA

         A corça pode sentir o cheiro de água e grama à quilômetros de distância. Ela pode até mesmo sentir o cheiro da água que estiver correndo debaixo das areias de um deserto, e segui-la até encontrar a saída da água. A corça pode subir nos picos mais altos onde o orvalho cai mais forte, para saciar tua cede. A vida do cristão, deve ser exatamente assim. Devemos estar sempre necessitados e dependentes do Espírito Santo. Esta é água da vida, que faz em nós uma rica fonte que jorra para a vida eterna. Deus pode tornar nossos sentidos sensíveis a presença do Espírito Santo. Andemos sempre necessitados e dependentes desta água viva, pois, mesmo que no deserto, Deus nos dará sentido apurado para buscar desta água nos lugares mais altos, clamando pelo poder que há no sangue de Jesus e entronizados diante do Pai para saciar a cede da nossa alma.

4 – E ME FARÁ ANDAR SOBRE AS MINHAS ALTURAS

         Existem vários tipos de pessoa em nosso convívio. Muitas delas, talvez agora, estejam querendo ver o seu mal. Sim, há pessoas que não se alegram com a sua felicidade, com o seu sucesso, com o seu casamento, com seu sucesso no trabalho e etc... As vezes parece que o mundo inteiro quer te ver para baixo. Porém, é com plena convicção de fé que posso afirmar que existe uma pessoa que quer te ver andando sobre as suas alturas. Jesus Cristo é aquele que vai te proporcionar pés fortes e firmes, com uma lâmpada que é a sua palavra. Muito se fala no livre arbítrio do homem, mas pouco no livre arbítrio de Deus. Talvez alguém da sua própria família tenha escolhido te fazer mal, ou, talvez alguém do seu trabalho tenha intentado contra sua vida na surdina. Quem sabe até mesmo alguém que já apertou sua mão pela manhã lhe desejando a paz do Senhor tenha escolhido um dia lhe fazer o mal. Mas quando o livre arbítrio do homem se choca com o livre arbítrio de Deus, adivinhe qual arbítrio prevalece no final? Sim, Deus escolheu te abençoar e te proteger do mal, pois ele quer ver seus fiéis andando nas alturas do Seu descanso.


A corça é aquela espécie de animal que quando uma pessoa está viajando por regiões montanhosas e não conhece seus atributos, vê este animal em um monte alto e íngreme, aponta o dedo e diz “meu Deus, vai cair, vai cair! ”. Talvez você esteja neste momento tendo aflições assim como Habacuque teve, talvez você esteja passando por um deserto na sua vida espiritual, talvez agora tenha uma pessoa apontando para sua vida dizendo “vai cair, vai cair! ”, mas o que essa pessoa não sabe é que você não está pisando nas areias movediças deste mundo, mas está com os pés firmes na rocha que é Jesus Cristo o nosso Senhor. Sigamos os passos. Lancemos sobre Deus as nossas ansiedades porque ele tem cuidado de nós. Ele fará os nossos pés como os da corça e nos fará andar sobre as nossas alturas. Amém. 

Julio Celestino
Vitória - Espírito Santo

Vida após a morte na Mitologia Grega - Começando a entender o nome de deidades pagãs na bíblia (Hades, Tártaro, Tanatos)

Extraído Seguindo os passos da história de quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

VIDA APÓS A MORTE NA MITOLOGIA GREGA

A religião grega antiga, hoje conhecida mais como mitologia grega, embora mitologia e religião não sejam a mesma coisa, pois nem todos os mitos possuem uma ligação religiosa no sentido de referir-se ao culto e rito. O que difere principalmente o mito da religião, é o fato que o mito narra uma história que possa envolver ou não algum deus ou divindade, a qual essa era cultuada por algum povo. No entanto, independente dos deuses gregos aparecem em vários mitos, tais mitos não explicavam propriamente o lado ritualístico e litúrgico, mas de certa forma esboçava a crença e a fé nessas divindades.
Para nós, habitantes do século XXI, os antigos mitos são falsos, são histórias mentirosas. No entanto, da mesma forma que temos fé e acreditamos nas histórias contidas em livros sagrados, esses povos do passado também tinham fé em seus deuses e acreditavam nos mitos, embora entre os gregos já houvesse a ideia de história mentirosa.
No caso dos antigos gregos, estes desenvolveram ritos e crenças que explicavam para onde a alma iria após a morte do corpo, o que haveria no Além. Provavelmente vocês já devem ter ouvido falar do Hades, do Tártaro, dos Campos Elísios e do Olimpo, mas nesse texto apresentarei alguns assuntos já conhecidos por alguns, mas com alguns detalhes e aspectos que passam desapercebidos.

Espíritos e almas
Os gregos antigos já possuíam uma noção sobre a existência de uma alma, pois consideravam locais para onde as almas iriam após a morte. Por outro lado, eles também consideravam a existência de fantasmas, onde era dito que se tratavam das pessoas que não receberam os ritos fúnebres adequados, pois para eles o papel dos ritos era mais do que simbólico, era uma forma de guiar os mortos para seu destino após a morte, e se isso não fosse devidamente feito, as almas seriam barradas em sua viagem e ficariam presas no mundo dos vivos, os atormentado.
Aristóteles (384-322 a.C) dizia que o mundo e os seres vivos eram formados por uma mistura dos quatro elementos (água, fogo, terra e ar) com éter (suposto quinto elemento), e no caso dos seres vivos, vinha a chamada "centelha da vida" ou "ar da vida", o qual seria uma metáfora ou alusão para a alma. No mito de Prometeu, quando esse criou o primeiro homem, esse o moldou do barro e lhe soprou o "ar da vida".
A teoria atômica, surgida na Grécia Antiga, entre os filósofos Leucipo, Demócrito e depois desenvolvida por Epicuro e Lucrécio, dizia que toda a matéria do universo era formada por pequenas partículas invisíveis chamadas de átomos, os quais consistiam na base da matéria, nesse caso, o corpo seria o recipiente para a alma.
Platão (428-347 a.C) concebia a alma como sendo imortal e divina, ele a concebia dividida em três partes: razão, que era personificada pela cabeça, representando a sabedoria e o conhecimento; o irascível, personificada pelo tórax que simbolizava a impetuosidade e os sentimentos; e a concupiscência, personificada pelo ventre, representando o desejo.  Para ele a alma era perfeita e pura, mas era corrompida pela própria pessoa por suas escolhas e desejos errados. Platão também acreditava na reencarnação e no que ele chamava de "Mundo das Ideias", um local transcendental onde apenas a alma poderia ir. Tal local personificaria a verdadeira realidade em detrimento do mundo ilusório e imperfeito que era a Terra.

Pitágoras (570?-496 a.C) foi um importante filósofo e matemático grego, o qual defendia a ideia de que a alma era imortal, e que após a morte, passado um tempo, a alma reencarnaria em outro corpo. Pitágoras, segundo Bulfinch [2006] comparava a alma com a cera, onde ele dizia que assim como a cera pode ser moldada e depois derretida para ser reutilizada, a alma seria a mesma coisa nesse contexto. A essência que apenas é transferida de um corpo para o outro.
Pitágoras também acreditava na ideia da metempsicose, literalmente a transmigração da alma humana para um corpo não humano, nesse caso, os gregos acreditavam (pelo menos alguns) que a alma humana poderia reencarnar no corpo de um animal. Tal crença era compartilhada por outros povos e ainda hoje existem, especialmente entre o Hinduísmo e o Jainismo, antigas religiões indianas. Atualmente o Hinduísmo, o Jainismo, o Budismo e o Espiritismo Kardecista, são algumas religiões que acreditam em reencarnação e karma.
Outro aspecto importante era que os gregos antigos concebiam a existência de espíritos, chamados de daemons, palavra que acabou posteriormente sendo corrompida, dando origem a palavra demônio. No entanto, os daemons personificavam espíritos bons (eudaimons) e espíritos maus (kakodaimons); tais espíritos poderiam tanto conviver com uma pessoa, como também habitavam locais naturais e locais construídos pelos homens. As ninfas eram personificações da natureza, embora não fossem espíritos propriamente como os daemons, já que se mostravam como seres mais físicos. Sócrates (469-399 a.C) embora não fala-se muito em religião, costumava dizer que seus ensinamentos e conselhos, consistiam em palavras que ele ouvia de seu daemon.

O Paraíso não ficava no Céu
Diferente de outras religiões aonde geralmente o Paraíso, o local para onde vão as almas justas e bondosas, para um descanso pacífico e alegre, o qual comumente é referido ficar localizado num plano celestial; para os gregos antigos, o céu era o local da morada dos deuses, mais especificamente falando do Monte Olimpo, lar dos deuses gregos.

O Monte Olimpo com seus quase três mil metros de altitude é a montanha mais alta das Grécia e uma das mais altas da Europa. Para os gregos antigos, o seu topo era a morada dos deuses.

Os gregos concebiam dois tipos de céus: Urano que representava o céu visível, e de cor azul, e Éter o "céu superior", o qual é entendido como sendo o espaço. Tanto Urano quanto Éter são deuses primordiais que personificam tais lugares. No caso do Olimpo, que representava a moradia divina no Céu, era local exclusivo dos deuses, logo, o Paraíso não ficaria lá cima, pelo menos não o paraíso para os mortais.
O Monte Olimpo é representando como um conjunto de esplendorosos e magníficos palácios, geralmente diz-se que eram doze, fazendo referência aos Doze Olimpianos, ou seja, os doze deuses que possuíam residência fixa no Olimpo, embora algumas versões também digam que Poseidon e Hades ali possuíssem seus palácios, embora necessariamente não residissem com frequência no Olimpo.
É descrito que na entrada do Olimpo, se encontrava um grande e belo portão de ouro, feito pelo próprio Hefesto, deus do fogo, das forja e dos artífices. Os palácios eram feitos de reluzente mármore e em algumas versões dizem que eram feitos também de cristais. Eram adornados com ouro e prata, além de possuírem esplendorosos móveis de madeira de lei e luxuosos tecidos, como cortinas, toalhas de mesa, almofadas, lençóis, tapetes, etc. Havia também jardins e fontes, além de outras construções adjacentes. O palácio de Zeus e Hera ficava acima dos demais, pois ambos eram os soberanos do universo.

             Pintura retratando os doze principais deuses do Olimpo.

O clima era como de primavera, no entanto o céu mudava entre dia e noite, e dependendo do humor de Zeus poderia ficar nublado e tempestuoso. É descrito que os deuses se alimentavam principalmente de um manjar chamado Ambrosia, um alimento doce que dizia conceder muita alegria e que se um mortal o come-se, ganharia a imortalidade. Como bebida, os deuses comumente bebiam Néctar, uma mística bebida que dizia-se ser nove vezes mais doce do que o mel, mas muito saborosa.

Curiosamente, apenas dois mortais chegaram a viver no Olimpo, o primeiro fora o príncipe troiano Ganimedes o qual fora raptado por Zeus, o qual se transformou em uma gigantesca águia e capturou o jovem príncipe. Ganimedes fora levado ao Olimpo, recebeu a imortalidade a fim que se torna-se o copeiro dos deuses, passando a eternidade para servi-los. O segundo mortal a chegar ao Olimpo fora o herói Héracles (Hércules para os romanos), o qual em seu leito de morte, fora poupado pelo seu pai Zeus, o qual lhe concedera a imortalidade e um local no Olimpo. Héracles passou a viver entre os deuses, casando-se como sua meia-irmã Hebe, a deusa da juventude, outrora copeira dos deuses, substituída por Ganimedes.

O herói Belerofonte após ter derrotado a Quimera com a ajuda de Pégaso, chegou a voar no cavalo alado na tentativa de chegar ao Olimpo, mas Zeus indignado com a imprudência do herói o derrubou do cavalo, porém Belerofonte fora poupado de morrer naquele instante pela intervenção de Atena.


Na Titanomaquia, histórias que narram o confronto dos titãs contra os deuses, os titãs chegaram a tentar subir no Olimpo, mas foram repelidos pelos raios de Zeus. No caso do titã Prometeu, esse conseguiu chegar ao Olimpo, de onde roubou o fogo para dá-lo a humanidade.

                                               Ilustração do Monte Olimpo para o jogo God of War.

Assim, se o Céu era o lar exclusivo dos deuses, aonde ficava o Paraíso? Mas antes de chegar a ele, primeiro desceremos ao Inferno para conhecê-lo melhor.


O Inferno: o Reino de Hades


Hades

Após a vitória dos deuses contra os titãs o mundo fora dividido entre os três irmãos; Zeus o caçula dos deuses-titãs Cronos e Reia, acabou se tornando senhor do céu e da terra. A Poseidon, o filho do meio, este ficou com o governo dos mares, e ao primogênito Hades a quem caberia o direito de governar o céu e a terra, lhe restou o mundo inferior, mas pelo fato de Zeus ser o deus mais poderoso e mais astuto que seus irmãos, soube convencê-los dessa divisão. No entanto, embora a Hades fora legado o reino inferior, ele não era retratado como sendo um deus cruel e revoltado, diferente do que vemos em algumas outras histórias. Poseidon, era mais genioso e esquentado do que ele, não é por acaso que ele também era o deus dos terremotos e das tempestades. Hades (Plutão para os romanos) era casado com sua sobrinha, a deusa Perséfone, filha de Zeus com a sua irmã, a deusa Deméter, deusa da agricultura, das estações e dos alimentos.
A história de Perséfone e Hades é um tanto trágica, pois Hades sequestrou Perséfone e a levou ao mundo inferior a obrigando a se casar com ele, mas depois de todas as reviravoltas, Perséfone acabou se apaixonando por Hades e aceitou se tornar sua esposa, porém Zeus estipulou uma condição, metade do ano, Perséfone viveria com o marido no Inferno e a outra metade ela viveria com os pais no Olimpo. Logo, o período que marca a estadia de Perséfone com o marido, simboliza o outono e o inverno, pois chateada, a deusa Deméter, esquece de dar as bençãos aos campos e a natureza. Mas, quando a filha está em casa, representa a primavera e o verão, daí dizer que Perséfone personificava a chegada da primavera.


Pintura em um vaso grego, retratando os soberanos do Inferno, Hades e Perséfone.

Hades possuía alguns epítetos bem interessantes: era chamado de o "invisível", aspecto este reforçado no mito de Perseu onde diz que o deus possuía um capacete que concedia a invisibilidade, capacete esse que o deus emprestou a Perseu em sua missão de encontrar a Medusa. Era também chamado de "Senhor dos Mundo Inferior", "Rei dos Mortos", "Soberanos de Muitos", "Zeus do submundo", etc. Embora Hades não fosse um dos deuses mais cultuados, era respeitado por sua condição como senhor dos mortos, esse aspecto é tão marcante que o Inferno entre os gregos também era chamado de Hades, revelando a influência do deus sobre aquele lugar, que curiosamente era o destino de quase todos os mortais. Dizia que a vida fora dada pelos deuses, mas após a morte, sua alma pertenceria a Hades.
Embora o Inferno fosse um lugar sombrio e nada agradável, Hades tinha uma vantagem, era o senhor de todas as riquezas que brotavam da terra, logo, as minas, os metais preciosos e as pedras preciosas pertenciam a ele. Além disso, sua função não se resumia apenas em reinar sobre o mundo inferior, mas também, julgar as almas e impedir que elas tentassem fugir do Inferno. No jogo God of War III, depois que Kratos mata Hades, o Inferno entra em caos, e os mortos começam a voltar para a superfície.

O caminho para o Inferno
Quando as pessoas morriam de uma morte sem ser grave, os deuses gêmeos, Tânatos, o deus da morte e Hipnos, o deus do sono iam buscar a alma e conduzi-la até a entrada do Inferno. Porém, quando a morte havia sido grave, como um assassinato ou um terrível acidente, as deusas Queres eram as responsáveis por irem buscar as almas, pois as Queres estavam associadas as "mortes violentas". Em algumas versões, diz que Hermes também guiava os mortos ao Inferno.
Um aspecto interessante que se poder tirar dessas histórias, é que tanto Tânatos, Hipnos e as Queres são representados como seres alados, logo, se passarmos para a Bíblia, é dito que os anjos guiavam os mortos ao Céu e os demônios os jogavam ao Inferno, e ambos são retratados como seres alados.

Após serem convocadas pelos deuses, as almas eram guiadas ao mundo inferior; nos mitos existem relatos de várias passagens que levavam até esse lugar, mas curiosamente independente de onde essas passagens começavam, acabavam por chegar ao mesmo local, as margens do Rio Aqueronte. O Aqueronte era um dos cinco rios que cruzavam o mundo inferior, dizia-se que possuía afluentes na superfície, mas sua maior parte ficava sob a terra.
Não existem muitas descrições sobre tal rio, mas diz-se que suas águas eram sombrias, que a região por onde ele passava no mundo inferior era escura, fria, pedregosa e inóspita. O Aqueronte era considerado a fronteira entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos, pois para se chegar ao Hades propriamente, teria que atravessá-lo, e a única forma de fazer isso era através do barco do barqueiro Caronte. Caronte era descrito como tendo uma aparência cadavérica e envelhecida. Era dito que era filho de Nyx, a deusa da noite.
Caronte era o responsável por levar os recém-mortos até o Hades, porém a travessia não era de graça, havia uma quantia a ser paga. As versões variam entre se pagar uma moeda ou duas, mas de qualquer forma, se tal singela quantia não fosse paga, a alma não poderia atravessar e ficaria presa no mundo dos vivos, retornando como um fantasma, como fora dito inicialmente. No Canto VI da Eneida, poema escrito pelo poeta romano Virgílio (70-19 a.C), o qual narra as aventuras do herói troiano Eneias; nesse capítulo, Eneias desce ao Inferno a fim de encontrar a alma de seu pai Anquises. O herói realiza a viagem auxiliado pela sacerdotisa Sibila, a quem o guia naquele mundo. No poema é descrito que Eneias vê várias almas postadas nas margens do Aqueronte, quando questiona quem seriam aquelas pessoas, lhe é respondido que aqueles eram as almas das pessoas que não haviam tido ritos fúnebres,  logo suas almas não podiam cruzar o rio. Era dito que se uma alma aguarda-se cem anos, Caronte fazia a cortesia de atravessá-la.

Ilustração de Caronte para a Divina Comédia, feita por Gustavo Doré. 

Para nós, pode parecer estranho alguém se lamentar em não poder entrar no Inferno, o problema são dois: primeiro, é no Inferno onde as pessoas de bem seriam julgadas para irem aos Campos Elísios, o paraíso dos mortais. Segundo, não poder realizar a travessia, era como interromper um ciclo obrigatório, que todos os mortais deveriam fazer, a não ser que os deuses intercedessem. As Moiras, as quais eram as deusas do destino, viviam no Inferno. Elas eram responsáveis por determinar o destino dos mortais e por um fim em suas vidas.
Logo, quando a alma não podia cruzar o rio, ou ela ficava se lamentado nas margens do Aqueronte ou retornava para a superfície indo atormentar os vivos ou se lamentar para os mesmos. Seria um sofrimento a mais, ficar ao lado da família e dos amigos, mas não poder interagir com eles, como uma pessoa viva.
Algumas versões dizem que além de atravessar o rio Aqueronte, Caronte também navegava pelo Rio Estige, outro dos cinco rios infernais, no entanto, tais versões são menos aceitas, pois consideravam que o Estige não se misturaria com o Aqueronte.
No mangá/anime Os Cavaleiros do Zodíaco: A Saga de Hades - Capítulo do Inferno, Caronte é retratado como um dos cavaleiros de Hades, e segundo a história, o rio Aqueronte era tão vasto que parecia um mar, não sendo possível enxergar a outra margem. E apenas Caronte é quem conseguia fazer a travessia de barco.
Porém, tendo atravessado o rio, as almas voltavam a pisar em terra, ficando diante de um grande portão de ferro ou de bronze, dependendo da versão; era retratado como sendo enferrujado e bem antigo, e de aparência retorcida e sinistra. Aqueles eram os Portões do Inferno, e do outro lado, vigiando com seus seis olhos, estava o cão de guarda do Inferno, Cérbero.
Sobre os Portões do Inferno, uma dos relatos clássicos sobre esse local, se encontra no Canto III da Divina Comédia, poema escrito pelo poeta italiano Dante Alighieri (1265-1321). Nesse canto, na estrofe três, versículo nove, Dante descreve uma frase que se encontra escrita no portão o qual seria feito de pedra e não de metal. A frase marca propriamente o início de sua jornada pelos nove Ciclos do Inferno, assim como ele concebe o local em seu poema. A frase que ele leu diz o seguinte: "Deixai, ó vós, que entrais, toda a esperança!".

           Ilustração de Cérbero, o cão de guarda do Inferno.

Cérbero era filho do temível titã Tífon e da horrível Equidna, conhecida como a "Mãe de todos os monstros". Cérbero é normalmente retratado como sendo um gigantesco cachorro com três cabeças, embora seu tamanho e sua raça nunca foram especificados, logo, dependendo de quem o represente ele pode variar de tamanho absurdamente. Além disso, outro aspecto que o marca, é que Cérbero também era retratado como possuindo a cauda sendo a cabeça de um dragão ou de uma serpente, e possuindo cabeças de serpentes que brotavam de seus pescoços ou das costas, cabeças estas que cuspiriam fogo ou veneno.

Cérbero costuma ficar de prontidão diante dos Portões do Inferno, sempre alerta, mas curiosamente sua função não era manter os intrusos do lado de fora, mas pelo contrário, impedir que os mortos tentassem fugir do Inferno. Mesmo assim, não significa que Cérbero deixa-se qualquer um entrar de bom grado no Inferno. Alguns heróis que ali desceram tiveram que se valer de artimanhas ou da ajuda dos deuses para poder entrar e depois sair.

Orfeu quando desceu ao Inferno, no intuito de trazer sua esposa, Eurídicede volta a vida, fizera Cérbero adormecer ao som de sua lira. Eneias quando ali também teve que passar, contou com a ajuda de Sibila, a qual jogou um "bolo" para Cérbero, o qual acabou caindo no sono. Odisseu (Ulysses para os romanos), Teseu e Psiquê (esposa de Eros) também entraram no Inferno, porém os mitos não detalham como eles fizeram para entrar e sair, com exceção de Teseu que ficara preso e fora solto por Héracles.
Uma história conhecida diz respeito ao décimo segundo trabalho de Héracles, o qual o rei Euristeu que lhe incumbia dos trabalhos, lhe dera a difícil missão de capturar o cão infernal, Cérbero. Héracles aceitou a missão e desceu ao Inferno, sendo guiado por seus irmãos Atena e Hermes. Ele passou por Cérbero e fora procurar seu tio Hades em seu palácio, lá ele lhe falou acerca de sua vinda ali. Hades concordou, porém Perséfone pediu para que o herói não maltrata-se o animal. Outras versões atribuem tal pedido feito pelo próprio Hades. Héracles concordou em não usar nenhuma arma para ferir o cão, apenas usaria sua colossal força, assim depois de lutar contra o cachorro e subjugá-lo, Héracles o acorrentou e o carregou sobre os ombros, o levando para a superfície, em direção a Micenas, onde reinava Euristeu. Depois disso, o herói devolveu o cão para seu lugar.
Na Divina Comédia, Dante retira Cérbero do seu posto diante dos portões, e o transfere para o Terceiro Ciclo, no qual são castigados os gulosos, ou seja, os pecadores que cometeram o pecado da gula. No entanto, a gula diferente do que comumente pensamos em se referir apenas ao excesso em se comer alimentos, a gula também refere-se a se beber muito, independente de ser bebidas alcoólicas ou de outro tipo, pois em essência a gula, refere-se ao descontrole em se consumir alimentos e bebidas.
Nesse caso, Dante diz que Cérbero devorava os gulosos, os aprisionando em seu estômago. Tal visão também é compartilhada pelo desenho Os Cavaleiros do Zodíaco (Saint Seiya), no capítulo do Inferno, o qual tem como inspiração a Divina Comédia.

Os Juízes
Passando pelos portões, as almas recém-chegadas adentravam a região infernal chamada de Érebo. Érebo, também era o nome do deus primordial da escuridão, sendo que uma das referências dadas a essa região era de "mundo das sombras", por dois sentidos: primeiro, por ser escura, e segundo, porque os mortos também eram chamados de sombras. Pelo Érebo correm os rios Estige e o Cócito, o rio das lamentações.
O poeta grego Homero, autor da Ilíada e da Odisseia, utiliza a referência "sombra" para referir-se aos mortos. Na Odisseia, Odisseu acaba tendo que ir ao Inferno para encontrar a alma do vidente Tirésias o qual lhe poderia ajudar a encontrar o caminho de volta para sua casa, na ilha de Ítaca. Odisseu diz que viu várias sombras do seus companheiros de guerra enquanto andava pelo Érebo.

Na Eneida, Eneias e Sibila avistam várias almas se lamentando no chamado "Campo das Lamentações" que ficaria em algum lugar do Érebo. No poema, Eneias tem a infelicidade de encontrar a falecida rainha Dido, a quem outrora havia amado e quase chegara a se casar com esta. Dido havia cometido suicídio, pois Eneias a abandonara. E agora passaria a eternidade vagando pelo Érebo em profundo remorso.
Atravessando os campos sombrios e estéreis do Érebo, as almas recém-chegadas, são guiadas por demônios, ou pelas Queres, ou pelas Erínias, deusas da tortura, da vingança, do rancor e do castigo. Embora, Hades e Perséfone fossem os soberanos do lugar, necessariamente eles não presidiam os julgamentos, para isso havia três juízes que cuidavam desses assuntos.

Pintura retratando as Erínias perseguindo Orestes. Orestes era filho do rei Agamêmnon, e depois que descobriu que sua própria mãe havia assassinado o seu pai, decidiu vingá-lo, então Orestes a matou junto com seu amante que havia participado da conspiração. Porém, as Erínias foram pessoalmente atormentar o príncipe, pois tal ato não era justificável. 

Na Eneida, Virgílio descreve que Eneias e Sibila percorreram uma estrada pedregosa até chegaram a um grande portão de bronze, o qual dava entrada para o tribunal do juiz Minos. O local é descrito como um grande pátio, guardado por uma hidra de cinquenta cabeças. Ao centro se encontrava uma grande mesa, sentada atrás dessa, estava Minos e diante dele a fila dos recém-chegados. No pátio, também havia um grande buraco, o qual dava acesso ao Tártaro, a parte mais profunda do Inferno, como veremos mais a frente. Eneias questiona para Sibila o quão profundo estaria o Tártaro, e essa responde que ele estava mais longe de seus pés do que o céu de sua cabeça.
Os três juízes do Inferno não eram deuses, mas sim mortais que receberam essa recompensa e dever. Minos, em vida fora o rei de Creta, o mesmo que ordenara a construção de um labirinto, projetado por Dédalo, onde ele aprisionou o monstro chamado Minotauro. Embora fosse considerado um tirano  para os atenienses, era considerado um bom monarca para seu povo. Minos era filho de Zeus e da princesa fenícia Europa.
O segundo juiz era irmão de Minos, este se chamava Radamanto. A Radamanto é lhe atribuído a origem das leis cretenses, pois o mesmo era um homem justo e honesto. Radamanto acabou tendo que fugir de Creta, devido a inveja que Minos nutria por ele. Porém, quando morreu, Zeus o nomeou juiz do Inferno, assim como seu irmão.

O terceiro juiz era Éaco, o qual era filho de Zeus e da ninfa Egina. Éaco se tornou rei da ilha de Egina, a qual fora homenageada com o nome de sua mãe. Éaco casara-se com Endeis com quem teve dois filhos, Peleu e Telamon, respectivamente, os pais de Aquiles e Ajax, logo, Éaco era avô desses heróis. Éaco era descrito como tendo sido um governante honesto e justo, e isso lhe rendeu indicação para assumir o terceiro cargo de juiz no Inferno. Éaco também é retratado tendo em mãos, as Chaves do Inferno.

Pintura antiga, retratando os três Juízes do Inferno. Da esquerda para direita: Radamanto, Minos e Éaco. 

Cada um dos juízes realizava um julgamento específico. Éaco julgava as almas dos europeus; Radamanto julgava as almas dos asiáticos, porém, dependendo das versões, uns atribuem a Éaco também julgar as almas dos africanos e outras atribuem tal dever a Radamanto, pois, Éaco julgaria o Ocidente e Radamanto o Oriente, logo, a África oscilava entre essas duas perspectivas para os gregos antigos. Quanto a Minos, esse dava o veredicto final.
Na Divina Comédia, Dante e Virgílio encontram Minos no Segundo Ciclo. No poema ele exerce sua função de juiz, condenando os pecadores de acordo com seus pecados a cada um dos ciclos.
Não há relatos claros dizendo se cada um dos juízes possuíam seu próprio tribunal ou ambos julgavam em um só tribunal. Em Os Cavaleiros do Zodiaco: A Saga de Hades, os três juízes são também cavaleiros, e cada um possui seu tribunal.
Mas, independente de não se saber se cada um possuía seu tribunal, o mesmo ficaria na região do Érebo, local onde a maioria dos mortos vagavam pela eternidade. Além de ser também o local onde Hades e Perséfone e outros deuses do Mundo Inferior possuíam seus palácios.

Pintura retratando o Hades, talvez a região do Érebo.

O julgamento feito pelos três juízes sentenciariam as almas a três locais:
·         Érebo: Ou seja, em geral a grande maioria das almas ficavam residindo no próprio Érebo, vagando como "sombras" por aqueles campos obscuros. Ao meu ver, tal sentença seria um "meio-termo", pois não seria tão pavoroso e sofrível como ir para o Tártaro, mas por outro lado, não seria bom como ir para os Elísios.
·         Tártaro: Para lá eram enviadas as pessoas que foram muito cruéis em vida, grandes pecadoras ou que tiveram afrontado os deuses.
·         Campos Elísios: As almas boas e bem-aventuradas, seriam enviadas para esse local de paz e felicidade.

O Tártaro
Tártaro era também o nome de um deus primordial, ligado ao local da morte. Era filho do deus Caos, o deus primordial. Tártaro chegou a ter alguns filhos com Gaia, deusa da terra, sendo um deles, o terrível titã Tífon, considerado o mais poderoso dos titãs. No entanto, Tártaro também era o nome dado ao local mais profundo da terra, e normalmente era descrito como sendo uma prisão envolta em escuridão. O poeta grego Hesíodo, dissera que o Tártaro era cercado por um gigantesco muro de bronze. Já Virgílio na Eneida, dissera que eram três grandes muralhas que cercavam o local, e além disso, o Tártaro seria um lugar muito quente e abafado, pois um dos rios do inferno, o Flegetonte, o rio de fogo, por ali passaria.

Pintura retratando o Tártaro. Ao centro ficaria uma espécie de fortaleza ou cidade, onde eram castigados os condenados. 

No passado, Cronos, o deus do tempo e um dos titãs, nascidos de Urano e Gaia, foi incentivado por sua mãe a destronar seu pai, pois Urano tinha horror aos seus filhos, e os aprisionou no Tártaro. No entanto, Gaia conseguiu libertá-los e Cronos liderou seus irmãos, assim ele usurpou o trono do pai Urano, e depois o castrou.
No entanto, Cronos também chegou a prender alguns dos seus irmãos, como os ciclopes-uranianos, os Hecatônquiros (gigantes de cinquenta cabeças e cem braços) e outros gigantes no Tártaro, pois os considerava como abominações. Porém, assim como seu pai foi destronado, foi previsto que Cronos teria o mesmo destino, e com isso ele passou a engolir os próprios filhos, os aprisionando em seu estômago. Porém, sua esposa Reia, conseguiu poupar o caçula, Zeus. Zeus cresceu escondido em uma ilha, e quando chegou a fase adulta foi confrontar seu pai. Após conseguir libertar seus irmãos do estômago do pai, Zeus reuniu os deuses, libertou os gigantes presos no Tártaro e iniciaram uma guerra. Com a vitória dos deuses, os titãs que apoiaram Cronos, assim como ele, foram todos jogados de volta ao Tártaro, sendo definitivamente presos pelo resto da eternidade. 

A Queda dos Titãs. Cornelis van Harrlem.

Como pode se ver, desde o início o Tártaro já apresentava uma função de prisão, e após a vitória dos deuses, ele não apenas voltou a abrigar os titãs e outros monstros, mas também passou a ser o local para onde os maiores pecadores e criminosos era enviados. De fato, alguns consideram o Tártaro como sendo a verdadeira essência do Inferno.
Lá, segundo conta Virgílio, do alto de uma torre, ficava em constante vigília a Erínia, Alecto, a qual seu nome significa "interminável", uma referência ao sofrimento eterno que aqueles condenados teriam que suportar. Virgílio, também dissera que as Górgonas (Medusa, Euríale e Esteno), como também hidras, quimeras e demônios, atormentavam os condenados no Tártaro.
Curiosamente os castigos oferecidos no Tártaro não são bem descritos nos mitos. Sabe-se que os titãs ficavam acorrentados, e em algumas versões, ficariam presos dentro de poços, algo que Dante fizera alusão em seu poema, no Oitavo Ciclo, quando encontrara alguns gigantes presos dentro de poços. Mas, diferente de Dante que soube detalhar os castigos sofridos em sua versão do Inferno, na mitologia grega, alguns dos castigos são um tanto peculiares, e os três mais famosos, dizem respeito a três mortais.

Tântalo, Sísifo e Íxion.

Tântalo era um rei que fora agraciado com a honra de realizar um banquete aos deuses, porém acabou matando um de seus filhos e servindo sua carne no banquete. Os deuses descobriram terrível ato, então Zeus matou Tântalo e o restante de seus filhos. O rei fora condenado diretamente ao Tártaro, onde fora aprisionado em um poço com água até a altura do pescoço. Seu castigo, fora sofrer de fome e sede pelo resto da eternidade. Toda vez que Tântalo tentasse beber água, o poço se secava. E toda vez que ele tenta-se pegar um dos frutos que se encontrava em uma árvore sobre o poço, o vento afastava os galhos dele.
No caso de Sísifo, esse fora rei de Corinto, e existem muitas versões sobre sua vida e os crimes que cometera, desde adultério, tentativa de matar o próprio irmão, delatar Zeus, e enganar o deus Tânatos e o deus Hades. Com isso, ele fora condenado ao Tártaro, a ter que empurrar ou carregar uma pedra de mármore montanha acima, mas quando se aproximava do topo, uma força jogava a pedra abaixo, e Sísifo, tinha que voltar todo o trajeto e começar tudo de novo. O castigo de Sísifo era realizar todos os dias, todas as horas, todo o tempo a mesma árdua tarefa, pelo resto da eternidade. Tal história originou o provérbio "trabalho de Sísifo", onde a rotina se torna uma tortura. 

Íxion fora um traiçoeiro rei que para se casar com Dia, filha de Eioneu, prometera como dote, seus melhores cavalos, mas depois de realizado o casamento, Íxion não deu o dote, isso levou Eioneu a se irar, o qual tomou a força o dote prometido, Íxion, se irou e jurou vingança. Ele acabou engando o sogro e o trancou dentro de uma casa, onde a queimou. O mesmo acabou se arrependendo e enlouqueceu. Porém, posteriormente, Zeus lhe restituíra a sanidade e realizara um banquete para ele, no entanto, Íxion já embriagado, começou a cortejar Hera. A deusa revoltada com aquilo, fora contar para seu marido. Zeus pediu que Néfele, a deusa das nuvens, cria-se uma nuvem na forma de Hera e a envia-se para Íxion. O tolo mortal achando que a rainha dos deuses cedera a suas investidas, a possuiu. Segundo o mito, tal nuvem teria dado origem aos centauros. Porém, Zeus indignado com a afronta que Íxion havia feito a sua esposa, o matou e o lançou ao Tártaro, onde o mesmo fora preso em uma roda em chamas, condenado a girar nesta pela eternidade.
O Tártaro para alguns estudiosos se assemelharia mais a ideia de Inferno, passada pelas religiões abraâmicas (Judaísmo, Cristianismo e Islamismo), como sendo um local quente, cheio de fogo, fumaça e enxofre, onde os gritos de dor dos pecadores eram ouvidos, enquanto demônios os castigavam severamente.

Os Campos Elísios
Os chamados Campos Elísios, lugar onde o vento sereno de Zéfiro (deus do vento oeste) sopra, onde prados verdejantes se estendem além da onde a vista alcança. Um lugar onde sempre é dia (em algumas versões diz-se que a noite existe), onde parece que a primavera não vai embora, pois os bosques são verdejantes e cheio de frutas e os campos ficam coloridos com as flores silvestres. Um lugar onde as pessoas cantam, dançam, leem, declamam poesias, praticam exercícios, correm, brincam. Um lugar onde não há dor, sofrimento, e nenhum sentimento ruim e pecaminoso. Um lugar, onde as pessoas vivem em paz e felizes.

Pintura retratando os Campos Elísios.

Tais campos são na mitologia grega, o que concebemos como Paraíso em outras religiões, como já fora dito anteriormente nesse texto. Mas, um fato interessante é que a localização dos Elísios não é certa. Virgílio, diz que tais campos ficavam no próprio Hades, pois fora para lá que Eneias e Sibila se dirigiram para encontrar Anquises. No jogo God of War: Chains of Olympus, os Campos Elísios também ficavam localizados no Hades. No jogo, também diz que o pilar que sustenta o mundo se encontra nos Elísios, e esse pilar era a base do Monte Olimpo.
Em alguns mitos antigos, os Elísios seriam cercados por gigantescas muralhas, a fim de separá-lo do Érebo. E tal lugar seria governado pelo juiz Radamanto. E tendo como guardião o próprio Cronos. Porém, tal versão não fora muito aceita posteriormente, pois Cronos estava preso no Tártaro, e não seria poupado de seus crimes, no entanto, os Elísios mesmo assim se manteriam no Inferno.
Porém, para outros poetas como Homero, Hesíodo e Píndaro (522-443 a.C), os Elísios não ficariam no mundo inferior, mas seriam ilhas localizadas no Ocidente, no Mar Oceano, nome dado ao atual Oceano Atlântico. Hesíodo, chega a se referir aos Campos Elísios como Ilhas dos Afortunados ou Ilhas dos Bem-aventurados. Homero refere-se ao local brevemente na Odisseia, mas alega que o mesmo seriam ilhas localizadas no grande oceano, onde o juiz Radamanto as governaria. O historiador grego Plutarco (46-120), defende a ideia de que os Elísios seriam ilhas localizadas a oeste da costa africana.
Em Os Cavaleiros do Zodíaco: A Saga de Hades, os Campos Elísios ficariam em uma espécie de outra "dimensão". Embora, que um dos caminhos para lá se chegar, se encontra-se atrás de uma grande parede no Inferno. Na Divina Comédia, Dante não chega a falar propriamente dos Elísios, mas faz menção ao local, fazendo alusão ao encontro de Eneias com Anquises, descrito na Eneida.

Pintura retratando o encontro de Eneias com seu pai Anquises nos Campos Elísios. 

Outro aspecto que marca os campos é que um dos cinco rios infernais por ali passava. Nesse caso, o Rio Lete, o rio do esquecimento. Dizia-se que após mil anos, a alma poderia reencarnar em outro corpo. Ao se beber da água do Lete, a alma acabaria esquecendo sua vida passada. Na Divina Comédia, o rio Lete não fica localizado no Inferno, mas sim na Montanha do Purgatório, onde as almas que recebiam o perdão, bebiam-lhe da água, antes de poderem entrar no Céu. O rio possuía a mesma função de fazer esquecer aquele a quem bebe-se de suas águas.
Os Campos Elísios posteriormente além de terem sido associados ao Paraíso, também chegaram a serem comparados ao Jardim do Éden, ao jardim das delícias.
NOTA: Os Crônidas, designação dada aos filhos de Cronos e Reia eram: Hades, Poseidon, Hera, Deméter, Héstia e Zeus.
NOTA 2: As Moiras, as deusas do destino eram: Átropos, Láquesis e Cloto.
NOTA 3: As Erínias eram: Tísifone, Megera e Alecto.
NOTA 4: Ambrosia é o nome de um doce feito à base de ovos, bem comum em Portugal, Espanha e em alguns estados no Brasil, especialmente no interior desses.
NOTA 5: Néctar é o nome pelo qual são chamadas as bebidas alcoólicas no jogo The Sims 3. Além disso, há também o doce ambrosia, o qual concede grande felicidade e rejuvenesce o Sim em alguns dias de vida.
NOTA 6: Ambrosia é o nome de uma família de plantas.
NOTA 7: Existem muitas avenidas com o nome de Campos Elísios. Em Paris existe a famosa Champs-Élysées, a qual passa sob o Arco do Triunfo construído por Napoleão Bonaparte. Na cidade de São Paulo, além de existir uma avenida com esse nome, também existe o bairro dos Campos Elísios, fundado no século XVIII por ricos empresários e fazendeiros, constituindo um bairro nobre na época. 

Referências Bibliográficas:

BULFINCH, Thomas. O livro de ouro da mitologia: histórias de deuses e heróis. Tradução de David Jardim, Rio de Janeiro, Ediouro, 2006.
VIRGÍLIO, Públio. Eneida. Tradução de Manuel Odorico Mendes. São Paulo, Martin Claret, 2011.
ALIGHIERI, Dante. Divina Comédia. Tradução de J. P. Xavier Pinheiro, Rio de Janeiro, W. M. Jackson, 1964. (volume I).
HOMERO. Odisseia. Tradução de Jaime Bruna. Rio de Janeiro, Otto Pierre Editores, 1980.
HESÍODO. Teogonia. Nitéroi, UFF, 1979. 
Grande Enciclopédia Larousse Cultural, v. 9, São Paulo, Nova Cultural, 1998.
Grande Enciclopédia Larousse Cultural, v. 12, São Paulo, Nova Cultural, 1998.
Grande Enciclopédia Larousse Cultural, v. 14, São Paulo, Nova Cultural, 1998.
Grande Enciclopédia Larousse Cultural, v. 16, São Paulo, Nova Cultural, 1998.
Grande Enciclopédia Larousse Cultural, v. 20, São Paulo, Nova Cultural, 1998.
Grande Enciclopédia Larousse Cultural, v. 21, São Paulo, Nova Cultural, 1998. 
Grande Enciclopédia Larousse Cultural, v. 23, São Paulo, Nova Cultural, 1998.  

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