2ª Coríntios 3.6 – Um Convite a Ignorância

08:44


“... Porque a letra mata e o espírito vivifica.”
Julio C. S. Celestino



Parte 1

INTRODUÇÃO

“Alguns cristãos creem que a sua sinceridade os livrará do erro doutrinário. Frequentemente tenho a impressão de que os crentes em geral consideram a sinceridade de atitude como sendo mais importante do que o conteúdo da crença. Não se deprecia a necessidade de ser sincero; nenhuma pessoa sensata crê que a sinceridade deva substituir o conhecimento da verdade, pois elas não estão em contradição. O resultado desastroso de se crer numa falsidade, não importando quão sincera seja a pessoa, é que quanto maior for o grau da sinceridade, mais horrendas serão as consequências. Toda crença tem consequência, e uma convicção errada sustentada com sinceridade trás dolorosas sequelas.” - Rev. Ewerton Barcelos Tokashiki.


Parte 2

UM FANTASMA DO PASSADO

         O fantasma do passado que me assombra frequentemente chama-se: ignorância. O fantasma que falo não trata-se de simplesmente ser pouco instruído nas escrituras. A ignorância teológica que falo é a situação de um cristão que, não conhece a história de sua igreja, não conhece as escrituras, e pior, não se interessa em aprender pelo menos o básico da estrutura da fé que propaga. Como se essa condição já não fosse ruim para vida de um cristão, ainda existem aqueles que não conhecem a própria bíblia e nem a história da igreja, mas por se sentirem pessoas “espirituais”, fazem afirmações e ensinam para o próximo a sua interpretação pessoal daquilo que definitivamente não conhecem como deveriam conhecer.
         Circula no meio evangélico, heresias populares geradas por tais pessoas; e a que vem me incomodando desde o início da minha vida em Cristo é dizerem que: “a letra mata e o espírito vivifica” quando o assunto é teologia. O conselho (destes) é que devemos orar para que Deus revele a mensagem além da letra, adotando assim, as características do método alegórico de interpretação. “A letra mata e o espírito vivifica” é uma frase extraída do versículo 6 do capítulo 3 da 2ª epístola aos Coríntios, documento que o apóstolo Paulo escrevera para instruir os membros da igreja situada na cidade de Corinto.
         Texto sem contexto é pretexto; isto é incontestável. Diante desta afirmação, é inevitável que eu levante a seguinte pergunta: O apóstolo Paulo, em 2ª Coríntios 3.6, está dizendo que nós não devemos estudar teologia? Será que Paulo está dizendo que estudar a bíblia mata de alguma forma?



Parte 3

UM ERRO APONTADO POR JESUS

Em seu comentário da respectiva epístola, publicado pela editora FIEL, João Calvino declara:
Porque a letra mata. Esta passagem tem sido distorcida e interpretada erroneamente; primeiro, por Orígenes, e depois por outros, e todos eles têm contribuído para o surgimento do mais danoso erro de que as Escrituras são não só inúteis, mas também danosas, caso não sejam alegorizadas. Este erro tem sido a fonte de muitos males. Não só abriu o caminho para a corrupção do significado natural das Escrituras, como também suscitou a ousadia no campo da alegorização como a principal virtude exegética.”

Hermenêutica – A Ciência da Interpretação: É absolutamente necessário tomar as palavras no sentido que indica o conjunto da frase. Esta regra tem importância especial quando se trata de determinar se as palavras devem ser tomadas em sentido literal ou figuradas. Para não incorrer em erros, convém, também, deixar-se guiar pelo pensamento do escritor e tomar as palavras no sentido que o conjunto do versículo indica.
         Partindo dessa regra de hermenêutica, é recomendável ler todo o capítulo 3 de 2ª Coríntios, de preferência a epístola inteira, pois texto sem contexto é pretexto. Então, por que toda essa distorção da palavra? Não vejo outra resposta a não ser o objetivo de alimentar um erro interpretativo de um versículo isolado. Essa ideia de que estudar a bíblia mata (não sei se dizem no sentido literal ou espiritual) é um convite à ignorância; e não foi isso que o nosso Senhor Jesus nos recomendou. Veja o que Ele disse aos fariseus em Mateus 22.29:

Jesus, porém, respondendo, disse-lhes: Errais, não conhecendo as Escrituras, nem o poder de Deus”.

Jesus afirma que não conhecer as escrituras é um erro. É preciso estuda-la e conhece-la! Dizer que um estudo das escrituras pode levar uma pessoa à morte é um erro muito grave, como eu disse, um convite à ignorância!
Agora, façamos uma breve análise do que disse Jesus:

1º Erro: Não conhecer as escrituras
2º Erro: Não conhecer o poder de Deus.

Por que Jesus colocou as escrituras em primeiro lugar? Seria as escrituras mais importantes que o próprio poder de Deus?
A resposta é simples: uma pessoa que não conhece as escrituras não saberá distinguir o que é poder de Deus e o que não é poder de Deus. Falsos mestres entram pela porta da ignorância bíblica que é deixada aberta por muitos escolhidos. Judas (da epístola de Judas) exorta sobre o preparo do cristão para combater os falsos mestres.


Parte 4

AFINAL, O QUE PAULO ESTÁ DIZENDO?

         2º Coríntios capítulo 3 – Para tentar expressar a superioridade do evangelho, Paulo faz um contraste do ministério de Moisés, que representa a antiga aliança, com o ministério do Espírito de Deus, o novo pacto (Mt 26.28). 

A letra mata, veja em Romanos 5:12,13; 7:9 e 8:2, acerca de como a Lei tende para a morte, e não para a vida. Isso não significa que a Lei é pecado, na verdade a lei é santa (Rm 7.12), mas ela estava enferma pela carne (Rm 8.3) e por ela não somos justificados. Contudo, não há dúvida de que, por Letra, Paulo quer dizer o Antigo Testamento e, por Espírito, ele quer dizer o evangelho. Pois quando ele diz que é ministro do novo testamento [nova aliança], acrescenta imediatamente a guisa de explicação, que é ministro do Espírito e com o Espírito ele contrasta a letra.

Exposição dos versículos chaves de 2ª Coríntios cap. 3 para entender a mente de Paulo com relação Letra x Espírito:

Versos 1, 2:  PORVENTURA começamos outra vez a louvar-nos a nós mesmos? Ou necessitamos, como alguns, de cartas de recomendação para vós, ou de recomendação de vós?  Vós sois a nossa carta, escrita em nossos corações, conhecida e lida por todos os homens.
Havia quem censurasse Paulo por tecer o seu próprio elogio (cf. 5.12), ao passo que os outros pregadores apresentavam cartas de recomendação das comunidades (cf. At 18.27+). Paulo responde que o fruto do seu apostolado, as comunidades que ele fundou, obras do Espírito, são recomendações vivas que tornam as cartas inúteis.

Verso 3:  Porque já é manifesto que vós sois a carta de Cristo, ministrada por nós, e escrita, não com tinta, mas com o Espírito do Deus vivo, não em tábuas de pedra, mas nas tábuas de carne do coração.
Literalmente “em tábuas de corações de carne”, alusão tanto ao dom da Lei em tábuas de pedra no Sinai (Ex 24.12), como às palavras de Ezequiel referentes ao coração de pedra e ao coração de carne (Ez 36.26). Esta alusão sugere que os adversários de Paulo sejam os judaizantes (cf. 11.22).

Verso 6: O qual nos fez também capazes de ser ministros de um novo testamento, não da letra, mas do espírito; porque a letra mata e o espírito vivifica.
A importância que os judaizantes atribuíam à Lei tinha como consequência a ideia de uma nova aliança segundo a letra, que Paulo não podia aceitar. Como ele não podia rejeitar a ideia de uma nova aliança (1Cor 11.25), era forçado a fazer distinção entre a letra e o espírito para esta nova aliança. Confira Romanos 7.7+; Trata-se da “letra”, lei escrita, exterior, do AT, comparada ao Espírito, lei interior do NT, e não da oposição entre a “letra” e o “espírito” de determinado texto.


SÍNSTESE


         De acordo com o que foi dito acima, não temos dúvida de que apóstolo Paulo não estava querendo dizer para a igreja de Corinto que eles não precisavam estudar as escrituras para que o Espírito Santo lhes ensinassem tudo misticamente. Paulo estava apenas explicando a superioridade da Nova Aliança fazendo um contraste entre a Letra (Antiga Aliança) e o Espírito da Nova Aliança. Paulo, definitivamente, estava falando da Lei e não da bíblia ou da teologia em si.



Ouça este capítulo do programa Em Poucas Palavras, da Primeira Igreja Presbiteriana de Goiânia que fala deste assunto tão pertinente:

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