Domingo: Instituído por Constantino?

Este texto foi extraído da bíblia de estudo DAKE, editora ATOS, pág. 1659
INTRODUÇÃO


Ultimamente tenho ouvido a expressão de que "o domingo é invenção da igreja católica", ou que "o domingo foi instituído por Constantino". Após ler algumas obras como o livro "Do Shabbat para o dia do Senhor", organizado por D.A Carson, descobri que na verdade, o domingo tornou-se um dia especial para os cristãos desde os tempos apostólicos, ou seja, antes mesmo da igreja católica existir. De fato, há uma verdade na afirmação de que a guarda do domingo foi historicamente decretada por Constantino, porém, muitas omissões acerca  dos escritos dos pais da igreja.

Por acaso, encontrei um pequeno artigo na bíblia de estudo DAKE, e gostaria de compartilhar. No final da postagem você pode acessar a um comentário do pastor Ciro Sanches sobre esta bíblia que trouxe tanta polêmica para os estudantes de teologia.



ARTIGO


Os discípulos de Moisés ensinam que Constantino, em 321 d.C., e a Igreja Católica, em 364 d.C., mudaram o sábado para o domingo. Os seguintes fatos da história provam que eles estão historicamente errados:

1- A Enciclopédia Britânica diz o seguinte nos verbetes "sábado" e "domingo": "Na igreja Cristã primitiva, os cristãos judeus continuaram a guardar o sábado, como os outros pontos da lei... Por outro lado, Paulo, nos primeiros dias do cristianismo dos gentios, afirmou claramente que o sábado judeu não era obrigatório para os cristãos. A controvérsia com os judaizantes levou, ao longo do tempo, à direta condenação daqueles que ainda guardavam o dia judeu... Em 321 d.C., Constantino passou o sábado cristão para o domingo, dia de desacanso para todo o Império Romano, entretanto, os cristãos o guardavam por quase 300 anos antes de Constantino fazer dele uma lei".

2- A New International Encyclopedia diz o seguinte acerca do "domingo": "Por algum tempo depois da fundação da igreja cristã, os convertidos do judaísmo ainda guardavam o sábado judeu em maior ou menor grau, a princípio, o que parecia, ao mesmo tempo, com a celebração do primeiro dia; mas, antes do fim do período apostólico, o domingo, conhecido como o dia do Senhor, estabeleceu-se totalmente como o dia especial a ser santificado (separado) pelo descanso do trabalho secular e pela adoração pública. A santificação do domingo parece, incontestavelmente, uma lei definida na igreja por volta do início do século IV; e o imperador Constantino confirmou o costume por meio de uma lei do estado".

3- A Enciclopédia Católica diz o seguinte acerca do "domingo": O domingo era o primeiro dia da semana segundo o método de cálculo dos judeus, mas, para os cristãos, ele começou a assumir o lugar do sábado judeu, nos tempos apostólicos, como o dia separado para a adoração pública e solene a Deus!. Este volume cita inúmero escritos cristãos primitivos do primeir, segundo e terceiro século para provar que o domingo era guardado pelos cristãos desde os tempos primitivos.

4- A International Standard Bible Encyclopedia diz o seguinte sobre "o dia do Senhor": "O dia do Senhor no NT ocorre somente em Apocalipse 1:10, mas, na literatura pós-apostólica, temos as seguintes referências: a Epístola de Inácio aos magnesianos, IX, 1: "Não mais guadando o sábado, mas vivendo de acordo com o dia do Senhor, no qual também a nossa luz se levantou...". Atos 2:46 representa a adoração especial como algo diário. Mas isto não poderia continuar mais... A escolha de um dia especial talvez tenha sido necessária, e este dia teria, sem dúvida, sido o domingo... Os gentios incircuncisos, no entanto, estavam livres de qualquer obrigação no sentido de guardar o sábado... Nenhuma observância de um dia especial de descanso aparece entra as "coisas necessárias" de Atos 15:28,29... Um determinado dia, como uma questão de obrigação divina, é declarado por Paulo como abandono de Cristo (Gálatas 4:9) e a observância do sábado é explicitamente condenada em Colossenses 2:16. Como uma questão de devoção individual, sem dúvida, o homem poderia fazer o que quisesse (Romanos 14:5,6), mas nenhuma regra geral como algo necessário para a salvação poderia ser compatível com a liberdade por meio da qual Cristo fez-nos livres (Gálatas 2:1-21; 3:1-14; 5:1-4,13)".

5- A seguir citamos, dos dez volumes intitulados Pais Ante-Nicenos, os escritos dos pais da igreja primitiva até 325 d.C., e antes de Constantino e a Igreja Católica, segundo suposições, terem mudado o sábado para o domingo:

(1) Inácio, bispo de Antioquia, que viveu no tempo dos apóstolos, 30-107 d.C.. Ele, como Policarpo, foi um discípulo de São João e um dos que deveriam conhecer a prática cristã entre os cristãos primitivos acerca do sábado. Ele escreveu: "E, após a observância do sábado (que os judeus guardavam), que todo amigo de Cristo guarde o dia do Senhor como uma festa, o dia da ressurreição, o principal de todos os dias da semana... no qual a nossa vida tornou a surgir, e a vitória sobre a morte foi obtida em Cristo... é irracional falar de Jesus Cristo com a língua e alimentar na mente um judaísmo que tem chegado ao fim... Se alguém pregar a lei judaica a vós, não o ouçais. Ora, é melhor dar ouvidos à doutrina cristã de um homem que é incircunciso a dar ouvidos ao judaísmo de alguém que é incircunciso" (Volume 1, pp. 63-82).

(2) Na epístola de Barnabé, reconhecido como companheiro de Paulo por Clemente, Orígenes e outros, lemos: "Ele lhes disse: "As vossas luas novas e os vossos sábados não posso suportar" (Isaías 1:13). Vós percebeis como Ele fala: Os vossos presentes sábados não são aceitáveis para mim... Farei um começo do oitavo dia, ou seja, um começo de outro mundo. Portanto, também guardamos o oitavo dia com alegria, o dia em que Jesus ressurgiu dos mortos" (Volume 1, p. 147).

(3) Justino, o mártir, um gentio que nasceu perto da fonte de Jacó por volta de 110 d.C., escreve: "E no dia que se chama domingo, todos que habitam nas cidades ou na terra reúnem-se em um lugar, e as memórias dos apóstolos ou os escritos dos profetas são lidos... Mas o domingos é o dia em que realizamos nossa assembléia comum, porque é o primeiro dia em que Deus, tendo feito uma mudança nas trevas e nas matéria, criou o mundo; e Jesus Cristo, nosso Salvador, ressurgiu dos mortos no mesmo dia" (Volume 1, p. 186).
Neste diálogo com Trifo, um judeu, Justino, o mártit, diz: "Há alguma outra coisa, meus amigos, em que somos culpados, senão esta: que não vivemos de acordo com a lei, nem que somos circuncidados na carne como vossos antepassados, nem observamos os sábados como vós fazeis ?... Os cristão observariam a lei se não soubessem por que ela foi instituída... Ora, nós também observaríamos a circuncisão da carne, e os sábados, e sumariamente todas as festas, se não soubéssemos por que razão eles foram a vós impostos... Como pode ser isto, Trifo, que não observaríamos aqueles rituais que não nos afetam - falo da circuncisão carnal, dos sábados e das festas ?... Os gentios, que creram nele, e que se arrependeram de seus pecados... receberão a herança juntamente com os patriarcas... ainda que não tenham guardado o sábado, nem sido circuncidados, nem observado as festas... Cristo é em vão para aqueles que observam a lei... O sábado e os sacrifícios e as ofertas e as festas... chegaram ao fim naquele que nasceu de uma virgem... Mas se alguns, pela fraqueza de espírito, quiserem observar tais instituições como foram dadas a Moisés... juntamente com sua esperança em Cristo... eles provavelmente serão salvos" (Volume 1, pp. 199-218).

(4) Tertuliano, presbítero da igreja norte-africana, que nasceu por volta de 145 d.C., escreve: "O Espírito Santo repreende os judeus por causa de seus dias santos. "Os vossos sábados, e as luas novas, e as cerimônias que minha alma odeia... Por nós (cristãos), para quem os sábados são estranhos... aos gentios, cada dia de festa ocorre senão uma vez por ano: vós (cristãos) tendes um dia de festa todo oitavo dia... Os outros supõem que o sol é o deus dos cristãos, porque é um fato conhecido que nós oramos para o oriente, ou porque fazemos do domingo um dia de festa... vós, que nos reprovais com o sol e o domingo, deveríeis considerar a vossa proximidade a nós. Não estamos distantes do vosso sábado e de vossos dias de descanso... Conseqüentemente, à medida que a abolição da circuncisão da carne e da velha lei demonstra ter sido consumada em seus tempos específicos, assim também a observância do sábado demonstra ter sido temporária" (Volume III, pp. 70, 123, 155, 313, 314).

(5) Em The Teachings of the Twelve Apostles (Os Ensinos dos Doze Apóstolos), escritos por volta de 80 d.C., lemos: "Mas, em todo dia (domingo) do Senhor, vós vos reunis e partis o pão e dais graças" (Volume VII, p. 381).

(6) Nas Constituições dos Santos Apóstolos (século III), lemos: "Quebrais o vosso jejum... o primeiro dia da semana, que é o dia do Senhor... Após oito dias, que haja outra festa observada com honra, no próprio oitavo dia (Volume VII, p. 447).

(7) Em The Teachings of the Apostles (Os Ensinos dos Apóstolos), escritos em 105 d.C., lemos: "Os apóstolos, portanto, estabeleceram: ...no primeiro dia da semana que haja culto e leitura das Sagradas Escrituras, e a oblação (a ceia do Senhor): porque, no primeiro dia da semana, nosso Senhor ressurgiu sobre o mundo e ascendeu ao Céu" (Volume VIII p. 668).

(8) Irineu, 178 d.C., ao argumentar que os sábados judeus eram sinais e símbolos, e que não daveriam ser observados uma vez que a realidade era que eles eram sombras que haveriam de vir, diz: "O mistério da ressurreição do Senhor não pode ser celebrado em um outro dia que não seja o dia do Senhor e é somente nele que devemos observar o rompimento da Festa Pascal... o Pentecostes aconteceu no primeiro dia da semana e estava, portanto, associado ao dia do Senhor."

(9) Clemente de Alexandria, 174 d.C., diz: "O velho sétimo dia não se tronou nada mais do que um dia de trabalho".

(10) Teófilo, pastor de Antioquia, 162 d.C., diz: "Costume e razão desafiam-nos no sentido de que devemos honrar o dia do Senhor, vendo que foi neste dia que o nosso Senhor consumou sua ressurreição dos mortos".

(11) Orígenes, por volta de 200 d.C., diz: "João Batista nasceu para preparar um povo para o Senhor, um povo para Ele no final da aliança, agora velha, que é o fim do sábado... É uma das marcas de um perfeito cristão guardar o dia do Senhor".

(12) Vitoriano, 300 d.C., diz: "No dia do Senhor, nós partimos o nosso pão e damos graças, para que não pareçamos observar qualquer sábado juntamente com os judeus, o qual o próprio Cristo, o Senhor do sábado, em seu corpo aboliu" (Seção 4, On The Creation [Na Criação]).

6- Eusébio, o pai da história da igreja, que traçou uma história do tempo entre o crescimento de Cristo e Constantino, e que viveu de 265-340 d.C., diz: "Desde o começo, os cristão reuniam-se no primeiro dia da semana, que chamavam de o dia do Senhor, com o propósito de realizar uma adoração religiosa, ler as Escrituras, pregar e celebrar a ceia do Senhor... o primeiro dia da semana no qual o Senhor conquistou a vitória sobre a morte. Portanto, ele tem a preeminência, a primeira posição, e é mais honroso do que o sábado judeu".


FONTE E ANÁLISE

O que dizer sobre a a bíblia de estudo DAKE? É uma bíblia confiável? Existem vários artigos sobre esta bíblia na internet, os quais eu li antes de adquirir um exemplar da mesma. Então, eu gostaria de recomendar uma pequena análise do pastor Ciro Sanches sobre esta obra. O esclarecimento do pastor me foi muito útil, espero que seja para você também. 




Pr. Ciro Sanshes










28/09/2015
Julio C. S. Celestino 

30 Conselhos para jovens teólogos

Por John Frame


1. Considere que você pode realmente não ser chamado para o trabalho teológico. Tiago 3:1 nos diz que muitos de nós não devem tornar-se mestres e que os mestres serão julgados com maior rigor. A quem muito (conhecimento bíblico) é dado, muito exigido.

2. Valorize seu relacionamento com Cristo, sua família, e com a igreja acima de suas ambições de carreira. Você vai influenciar mais pessoas por sua vida do que por sua teologia. E deficiências em sua vida podem negar a influência de suas ideias, mesmo que essas ideias sejam verdadeiras.

3. Lembre-se que o trabalho fundamental da teologia é entender a Bíblia, a Palavra de Deus, e aplicá-la às necessidades das pessoas. Tudo o mais, especificação histórica e linguística, perspicácia exegética, o conhecimento da cultura contemporânea e sofisticação filosófica, deve estar subordinado a esse objetivo fundamental. Se não for assim, você pode ser aclamado como um historiador, linguista, filósofo ou crítico de cultura, mas você não vai ser um teólogo.

4. Ao fazer o trabalho da teologia (descrito no ponto acima), você tem a obrigação de construir um argumento para o que você defende. Isso deveria ser óbvio, mas a maioria dos teólogos hoje não tem a menor ideia de como fazer isso. A teologia é uma disciplina argumentativa, e você precisa saber o suficiente sobre lógica e persuasão para construir argumentos que são válidos, sólidos e persuasivos. Na teologia, não é suficiente apenas demonstrar o conhecimento da história, da cultura, ou algum outro conhecimento. Também não é o suficiente citar pessoas que concordam com você e reprovar as pessoas que discordam. Você realmente tem que construir um argumento teológico para o que você afirma.

5. Aprenda a escrever e falar de forma clara e convincente. Os melhores teólogos são capazes de apresentar ideias complexas numa linguagem simplificada. Não tente convencer as pessoas de seu conhecimento através de uma linguagem obscura, sem transparência.

6. Cultive uma intensa vida devocional e ignore as pessoas que criticam isso acusando-lhe de pietismo. Orai sem cessar. Leia a Bíblia, não apenas como Lê um texto acadêmico. Valorize todas as oportunidades de participar de cultos e reuniões de oração no seminário e aos domingos na igreja local. Dê atenção à sua “formação espiritual”.

7. Um teólogo é, essencialmente, um pregador, embora ele normalmente lide com assuntos mais emblemáticos do que pregadores lidem. Mas deve ser um bom pregador. Encontre alguma maneira de fazer a sua teologia falar ao coração das pessoas. Encontre uma maneira de apresentar o seu ensino para que as pessoas ouçam a voz de Deus nele.

8. Seja generoso com seus recursos. Passe algum tempo conversando com alunos e futuros alunos. Doe livros e artigos. Não seja mesquinho quanto à questão dos direitos autorais; conceda permissão de cópia a qualquer um que lhe pedir. Ministério primeiro, segundo dinheiro.

9. Ao criticar outros teólogos, tradições, ou movimentos, siga a ética bíblica. Não diga que alguém é um herege, a menos que você tenha um caso muito claro diante de si. Não banalize termos do tipo "outro evangelho". (As pessoas que ensinam outro evangelho estão debaixo da maldição de Deus). Não destrua a reputação das pessoas com citações erradas, fora de contexto ou tomando suas palavras no pior sentido possível. Seja gentil e gracioso, a menos que você tenha motivos irrefutáveis ​​para ser duro.

10. Quando se levantar uma controvérsia, não assuma um dos lados imediatamente. Faça algum trabalho analítico em primeiro lugar, analisando ambas as posições. Considere as seguintes possibilidades: (a) que as duas partes podem estar olhando para o mesmo problema a partir de diferentes perspectivas, mas não se contradizem; (b) ambos os labos podem estar despercebidamente desprezando um ponto que poderia fazê-los pensar de maneira conjunta; (c) que eles não se comunicam entre si porque usam os mesmos termos de formas distintas; (d) que existe uma terceira alternativa, bem melhor do que qualquer um dos pontos das posições opostas e que poderia uni-los; (e) que as suas diferenças, embora legítimas, deveriam ser toleradas na igreja, como eram as diferenças entre os vegetarianos e comedores de carne citados em Romanos 14.

11. Se você tiver uma ideia brilhante, não espere que todos possam abraça-la imediatamente. Não comece imediatamente uma facção para promovê-la. Não insulte aqueles que não apreciam o seu pensamento. Argumente delicadamente com eles, reconhecendo que você pode estar errado e talvez não tenha a humildade para assumir.

12. Não seja abusivamente crítico com tudo o que vem de uma tradição diferente. Seja humilde o suficiente para considerar que outras tradições podem ter algo a ensinar-lhe. Seja dócil antes de começar a ensiná-los. Tire a trave do seu próprio olho.

13. Esteja disposto a reexaminar sua própria tradição com um olhar crítico. É razoável pensar que qualquer única tradição tem toda a verdade ou está sempre certa. E, a menos que os teólogos desenvolvam perspectivas críticas sobre suas próprias confissões e tradições, a reunião do corpo de Cristo nunca ocorrerá. Não seja um desses teólogos que são conhecidos principalmente por tentar fazer arminianos virarem calvinistas (ou vice-versa).

14. Veja os documentos confessionais com a perspectiva adequada. É o trabalho da teologia, entre outras coisas, repensar as doutrinas das confissões e reformá-las, quando necessário, pela Palavra de Deus. Não presuma que tudo na confissão está bem resolvido para sempre.

15. Não deixe que suas críticas sejam governadas por ciúme, como quando um teólogo se acha na obrigação de ser totalmente negativo para com o sucesso de uma mega-igreja.

16. Não se torne conhecido como um teólogo que atira constantemente na direção de outros teólogos e cristãos. Os nossos inimigos são: Satanás, o mundo e a carne.

17. Proteja seus instintos sexuais. Fique longe de pornografia na Internet e relacionamentos ilícitos. Teólogos não estão imunes aos pecados que afligem outros na igreja.

18. Seja ativo em uma boa igreja. Teólogos precisam dos meios da graça, tanto quanto os outros crentes. Isto é especialmente importante quando você está estudando em uma universidade secular ou seminário liberal. Você precisa do apoio de outros crentes para se manter na perspectiva teológica adequada.

19. Obtenha sua formação básica em algum seminário que ensina a Bíblia como a Palavra de Deus. Procure familiarizar-se com a teologia das Escrituras antes de se expor (se for o caso) a formas de pensamentos não bíblicas.

20. Aprecie a sabedoria, mesmo a sabedoria teológica dos cristãos relativamente iletrados. Não seja um desses teólogos que sempre tem algo negativo a dizer quando um crente simples descreve sua caminhada com o Senhor. Não as subestime, comparando-as com Helmut Thielicke "o pedestal da iluminação". Muitas vezes, os crentes simples conhecem a Deus melhor do que você, e você precisa aprender com eles, como fez, por exemplo, Abraham Kuyper.

21. Não seja um desses teólogos que fica animado sobre cada nova tendência na política, cultura, hermenêutica, e até mesmo teologia e que acha que temos que reconstruir nossa teologia para ir junto com cada tendência. Não pense que você tem que ser um feminista, por exemplo, só porque todo mundo é. A maioria das teologias que tentam ser culturalmente mais conhecidas não são bíblicas.

22. Desconfie de todos os modismos da teologia. Quando todo mundo pula em algum movimento teológico, quer teologia narrativa, feminismo, história da redenção, lei natural, liturgia, libertação, pós-modernismo, ou o que vier, este é o tempo para despertar suas faculdades críticas. Não entre no movimento a menos que você tenha feito o seu próprio estudo. Quando uma corrente teológica surge, reflita na seguinte questão: "O que há de errado com isso?" Há sempre alguma coisa errada. Não necessariamente o mais novo é o mais correto. De fato, muitos movimentos novos se tornarão falsos passos.

23. Nosso sistema de educação em nível de doutorado requer "pensamento original", mas isso pode ser difícil de fazer, uma vez que a igreja vem estudando as Escrituras por milhares de anos. Você vai ser tentado a realizar algo que seja novo (possivelmente escrevendo uma tese que não é propriamente teológica em tudo no sentido do ponto 3). Tente fazê-lo sem sair do caminho de uma teologia verdadeira.

24. Ao mesmo tempo, não rejeite a inovação simplesmente porque é inovadora. Ainda mais, não rejeite uma ideia simplesmente porque ela não soa com o que você está acostumado. Aprenda a distinguir o “som de uma ideia” do o que ela diz de fato.

25. Seja crítico com argumentos que se transformam em metáforas ou termos técnicos extra bíblicos. Não presuma que cada um tem um significado perfeitamente claro. Normalmente, não é este o caso.

26. Aprenda a ser cético com aqueles que são céticos. Estudiosos incrédulos e liberais são tão propensos a erros como qualquer pessoa - na verdade, mais ainda.

27. Respeite os mais velhos. Nada é tão ruim do que tornar-se um jovem teólogo que despreza aqueles que têm trabalhado no campo por décadas. Desacordo é bom, desde que você reconheça a maturidade e as contribuições daqueles que você discordar. Guarde 1 Timóteo 5: 1 para o coração.

28. Teólogos jovens muitas vezes se imaginam como o próximo Lutero, assim como os meninos se imaginam como o próximo Peyton Manning* ou Kevin Garnett**. Quando eles estão velhos demais para brincar de cowboys X índios, eles querem brincar de Lutero X Papa. Quando o Papa não entra na brincadeira, eles pegam alguém e dizem: “Aqui está você”. Provavelmente Deus não te escolheu para ser o líder de uma nova Reforma. Se ele escolheu, não chame a si mesmo de "reformador". Deixe que os outros decidam se isso é realmente o que você é.

29. Decida no início de sua carreira (depois de algumas experiências) o que focar e o que não. Ao considerar oportunidades, é tão importante (talvez até mais) saber quando dizer “não” como saber quando dizer “sim”.

30. Não perca seu senso de humor. Devemos levar Deus a sério, não a nós mesmos, e certamente não a teologia. Perder o seu senso de humor é perder seu senso de proporção. E nada é mais importante na teologia do que um senso de proporção.

(Texto original aqui)

É lícito comer coisas sacrificadas aos ídolos?

Doces oferecidos a crianças e adultos no dia 27 de setembro.

Muitas pessoas têm dúvidas se é pecado consumir alimentos que são oferecidos aos ídolos. Algumas pessoas usam o texto de Romanos 14. 14 que diz: "Eu sei e estou persuadido, no Senhor Jesus, de que nenhuma coisa é de si mesmo impura, a não ser para quem acha que é, para este somente é impura". Mas ao meu ver, existem problemas em consumir alimentos oferecidos aos ídolos.

Em primeiro lugar, digo que não é bom consumir estes alimentos por pelo menos 2 motivos:


1º - Os doces oferecidos são como um saboroso "cartão de visita" da idolatria.
2º - Adquirindo, consumindo e ensinando aos outros irmãos que não tem problema fazer isto, você estará contribuindo de alguma forma a idolatria por detrás da prática (marketing).


Em segundo lugar, Paulo afirma que se não soubermos a procedência do alimento não há problema. Mas, se soubermos, é melhor procurar outra opção de se alimentar. Confira no texto de 1 Co 10.27-28:

 "E, se algum dos infiéis vos convidar, e quiserdes ir, comei de tudo o que se puser diante de vós, sem nada perguntar, por causa da consciência. Mas se alguém vos disser: isto foi sacrificado aos ídolos, não comais, por causa daquele que vos advertiu e por causa da consciência; porque a terra é do Senhor, e toda a sua plenitude".

Ou seja, mesmo que o texto não esteja falando de balas de Cosme e Damião, há um princípio nele. Se eu comer doces oferecidos sem saber, tudo bem. Mas sendo cristão, e sabendo que foi oferecido, não devo comer por causa da consciência (devendo conscientizar os outros também, porque omissão também é pecado).

Seria muito estranho, ver os pais da minha igreja fazendo uma economia no bolso, indo e anunciando para os outros membros da família que o centro espírita de "fulano" está distribuindo bala para as crianças, e todos irem lá buscar. Se eu tenho a opção de comprar o alimento, não vou consumir os oferecidos (muito menos ensinar a meus filhos que podem ir lá pegar sem problemas).

A bíblia é clara ao dizer em 1ª Coríntios 10.14: "Portanto, meus amados, fugi da idolatria".

1ª Coríntios 10.18-20 diz claramente: "Vede a Israel segundo a carne; os que comem os sacrifícios não são porventura participantes do altar? Mas que digo? Que o ídolo é alguma coisa? Ou que o sacrificado ao ídolo é alguma coisa? Antes digo que as coisas que os gentios sacrificam, as sacrificam aos demônios, e não a Deus. E não quero que sejais participantes com os demônios".

Resumindo, em Apocalipse 2.14 Jesus aponta o pecado de comer dos "sacrifícios da idolatria". Mas se o crente não tiver o que comer, o mal que havia na mente de quem ofereceu o alimento não o fará mal, pois Deus sabe de todas as coisas, e conhece a causa do faminto.

Contudo, se eu posso me alimentar fora da idolatria, por que eu iria buscar alimento lá?




Julio Celestino

Comentário de Romanos 3.31



“Anulamos, pois, a lei pela fé? De maneira nenhuma; antes, estabelecemos a lei.”

Este versículo, que diz claramente que a fé estabelece ou confirma a lei, significa que o apóstolo Paulo está ensinando para a igreja, que mesmo tendo fé em Jesus, devemos estar debaixo da lei mosaica?
Sabemos que não somos justificados pelas obras da lei (Rm 3.19-20). Neste capítulo (e na maior parte da epístola), Paulo está tratando do assunto da justificação pela fé e não pelas obras. Mas como a Fé confirma a Lei? Apresento-lhes cinco motivos bíblicos para mostrar de que maneira a fé estabelece a lei:


1. Reconhecendo Cristo como o sujeito de seus ritos e cerimônias (Lc 24.44; Cl 2.14-17; Hb 8-10)
2. Pelo cumprimento da lei em Cristo (Mt 5.17)
3. Porque a lei nos leva à sua finalidade (Rm 10.14)
4. Por cumprir nos homens a justiça que a lei exigia, mas não podia dar (Rm 8.3).
5. Por incluir seus princípios morais e espirituais no N.T. (Hb 8.6).

Concordo com a explicação de D.L. Moody quando diz: A essência da lei da fé é que o homem é justificado pela fé, independentemente das obras da lei (Rm. 3:28). O Senhor é aquele que declara os homens justificados. Ele é o Deus, tanto de judeus como de gentios (v. 29). Ele declara que os judeus são justificados por causa da (ek) fé, e os gentios mediante a (diá) fé. Nos tais exemplos a fé é a causa da declaração de Deus. Assim ambos, judeu e gentio, encontram aceitação com Deus da mesma maneira - através de uma submissão pessoal a Ele, uma confiança pessoal nEle. Este fato não significa que a Lei seja anulada Antes, confirmamos a lei, ou estabelecemos. Ela é confirmada no seu papel de tornar os homens cônscios do pecado (v. 20). A lei confronta os homens não apenas com o seu próprio pecado, mas também com o Doador da Lei. Quando os homens confiam em Deus, o Doador da Lei, estão exatamente no lugar onde a lei tinha a intenção de colocá-los.

            Por fim, quando ouço alguém dizer que eu preciso ter fé em Jesus, e aceita-lo como meu único e suficiente salvador e usar a bíblia como a única regra de fé e prática, mas... Não posso fazer a barba, não posso usar bermuda, ou que alguém precisa usar uma roupa até determinada distância no corpo ou guardar determinado dia para salvação; ela estará ensinando que para justificação nós precisamos da Graça de Deus + alguma coisa (obras). Devemos desejar obedecer a lei de Deus, mas jamais, nenhum ser humano será justificado por ela. Ela já nos levou para a sua finalidade, Cristo Jesus.



Julio C. S. Celestino

A "Bênção de Toronto" - Um tipo do famoso "Reteté"

Entendendo a "Bênção de Toronto"
Até que ponto pode ir o reteté?

Augustus Nicodemus Lopes
(Artigo publicado originalmente na revista Ultimato, 1996)
Extraído da página: http://goo.gl/EiwMJd

No início de 1994 o mundo evangélico ficou agitado com as notícias de que um avivamento irrompera em uma das   Igrejas do Vineyard Fellowship ("Comunhão da Videira") em Toronto, cidade importante do Canadá. Tratava-se da Toronto Airport Vineyard Fellowship ("Comunhão da Videira do Aeroporto de Toronto"), pastoreada pelo pastor John Arnott e sua esposa Carol, também pastora. Evangélicos aos milhares, especialmente pastores (segundo Arnott, mais de 30.000 pastores e líderes)  vieram de várias partes do mundo para a Igreja do  Aeroporto, para ver e receber a "bênção de Toronto",  como ficou conhecido o movimento.

O que faz o movimento diferente do que acontece nas demais igrejas carismáticas do mundo é que ele afirma que Deus os tem visitado com um avivamento em que a presença do Pai torna-se tão intensa, e seu amor tão claramente revelado, que as pessoas são enchidas pela alegria do Espírito Santo, e reagem com gargalhadas, risos incontroláveis, chegando a cair no chão, a rolar de rir. Outras reações físicas mais conhecidas, como "cair no Espírito", tremores, gritos, etc. também estão presentes. Mas é a "gargalhada santa" que tem se tornado a principal característica deste movimento, apesar de que seus líderes sempre procuram dizer que o mais importante é a presença de Deus e as vidas transformadas.
A "bênção de Toronto" tem se espalhado pelas igrejas carismáticas pelo mundo afora. O Brasil não é exceção. As características do movimento já se fazem presente, inclusive em algumas igrejas locais das denominações históricas.

Como Tudo Começou

A antes desconhecida "Comunhão da Videira do Aeroporto de Toronto" começou a se tornar famosa quando John Arnott veio ser seu pastor. Arnott se converteu ainda adolescente numa cruzada de Billy Graham em 1955 no Canadá, e filiou-se a uma igreja Batista. Segundo suas próprias palavras, aprendeu com as igrejas Pentecostais de Toronto que "havia mais" do que era ensinado pela Igreja Batista.(1) Tornou-se membro de uma igreja Pentecostal, e posteriormente entrou no ministério na área de Toronto, em 1981. Casou-se com Carol, que também foi ordenada como pastora. Em 1993 começaram a pastorear a "Comunhão da Videira do Aeroporto de Toronto". O ministério de John Arnott e sua esposa era típico dos pastores de igrejas da "Terceira Onda": cura interior, batalha espiritual, libertação, expulsão de demônios, etc. Várias pessoas tiveram influência decisiva na vida e na formação teológica de Arnott. Ele reconhece entre elas a famosa Kathryn Kuhlman, o renomado pastor carismático Benny Hinn e, naturalmente, John Wimber.(2)
Em 1992 John e Carol Arnott foram a uma conferência de Benny Hinn em Toronto. Ambos se sentiam exaustos e secos no ministério. Sairam da conferência com o propósito de buscar da parte de Deus a "unção" que viram em Hinn (que nas conferências de Benny Hinn se manifesta especialmente pelas pessoas "cairem no Espírito"). Em Novembro de 1993, o casal Arnott foi à Argentina, conhecer o "avivamento" que estava acontecendo através de Claudio Freidzon, um líder das Assembléias de Deus naquele país. Numa das reuniões, John e Carol foram à frente, e Freidzon orou por eles. John caiu no chão. Quando se levantou, Freidzon lhe perguntou: "Você quer a unção?" John respondeu, "Quero, sim, quero de verdade". "Então, aqui está ela, receba-a", disse Freidzon, batendo com sua mão espalmada na mão aberta de John. E segundo John relata, naquele momento Deus lhe falou dizendo: "O que você está esperando? Por favor, receba-a, é sua!". E então ele recebeu a "unção" pela fé.(3)
Em Janeiro de 1994 John Arnott convidou Randy Clark, seu amigo e pastor de uma outra igreja Vineyard em Saint Louis, Missouri, nos Estados Unidos, para uma série de conferências. Ouçamos o testemunho do próprio Arnott sobre o que acontenceu:
No dia 20 de Janeiro de 1994 a bênção do Pai caiu sobre as cento e vinte pessoas que estavam presentes para o culto naquela quinta-feira à noite em nossa Igreja. Randy deu seu testemunho, e o período de ministério começou [o pastor e obreiros oram com imposição de mãos sobre os que vieram à frente em resposta ao apelo]. As pessoas cairam pelo chão debaixo do poder do Espírito, rindo e chorando. Tivemos que empilhar as cadeiras para termos espaço para todos. Alguns tiveram mesmo que ser carregados para fora.(4)
Arnott diz que a reação das pessoas naquela noite em cair no chão e rolar de rir, às gargalhadas, tomou-o e a Randy de surpresa, pois estavam esperando conversões e curas (além das quedas, naturalmente). A partir dai, em cada reunião da Igreja, durante o período de ministração, o fenômeno se repetiu: pessoas caindo de costas no chão (agarradas pelos "apanhadores", uma equipe que se posiciona atrás dos que vão à frente, para ajudá-los a cair sem se machucar), algumas explodindo em gargalhadas, literalmente rolando de rir no chão, outras ficando duras no chão, com os olhos fitando o vazio e as mãos estendidas para o alto. Outras, tremendo histericamente, outras gritando. Para John e Carol Arnott, a "unção" que tanto haviam buscado finalmente chegara — embora certamente de uma forma inesperada, sob a forma da "gargalhada sagrada", ou "riso santo". Arnott veio depois a batizar este comportamento como a "bênção do Pai", mas o nome que realmente pegou foi "a bênção de Toronto", nome dado por alguns jornalistas ingleses que vieram a Toronto observar o fenômeno.
Este tipo de comportamento dos que freqüentavam a Igreja do Aeroporto logo chamou a atenção do mundo evangélico, particularmente dos carismáticos, bem como da imprensa secular. A "bênção de Toronto" ocupou as primeiras páginas de jornais em alguns lugares ao redor do mundo. Cedo o local de reuniões que cabia cerca de 700 pessoas ficou pequeno para a quantidade de curiosos, e dos que queriam receber a "bênção", que vinham de todas as partes do mundo. Um novo local de reuniões comportando cerca de dois mil lugares foi preparado. Algumas linhas aéreas tiveram de dobrar o número de vôos para Toronto, e os hotéis da região passaram a promover pacotes especiais para os que vinham para as reuniões da Igreja do Aeroporto.
John Wimber, o líder da denominação A Videira, à qual pertencia então a Igreja do Aeroporto de Toronto, veio dos Estados Unidos a Toronto verificar in loco o que estava acontecendo. E voltou dizendo que o que estava ocorrendo lá, o riso santo, era obra de Deus. 
Mas nem tudo era motivo de riso. Em 1995, um novo fenômeno começou a se repetir nas reuniões, que finalmente provocou o desligamento da Igreja de Arnott da Videira. Aconteceu enquanto Arnott estava ausente em conferências na Igreja Vineyard de Randy Clark, nos Estados Unidos. Um pastor chinês, líder das Igrejas chinesas cantonesas de Vancouver, Canadá, durante o período de ministração na Igreja do Aeroporto, começou a urrar como um leão. Arnott foi chamado às pressas de volta, para resolver o problema. A liderança que havia ficado à frente da Igreja lhe disse que entendiam que o comportamento bizarro do pastor chinês era do Espírito Santo. 
Arnott entrevistou o pastor chinês diante da congregação durante uma reunião, e para surpresa de todos, ele caiu sobre as mãos e os pés, e começou a rugir como um leão na plataforma, engatinhando de um lado para o outro, e gritando "Deixem ir meu povo, deixem ir meu povo!". Ao voltar ao normal, o pastor explicou que durante anos seu povo tinha sido iludido pelo dragão, mas agora o leão de Judá haveria de libertá-los. A igreja irrompeu em gritos e aplausos de aprovação, e Arnott convenceu-se que aquilo vinha realmente do Espírito de Deus.(5)
A partir daí, os sons de animais passaram a fazer parte da "bênção de Toronto", embora, como Arnott insiste, não sejam muito freqüentes.(6) Há casos de pessoas rugindo como leão, cantando como galo, piando como a águia, mugindo como o boi, e gritando gritos de guerra como um guerreiro. Para Arnott, estes sons são "profecias encenadas", em que Deus fala uma palavra profética à Igreja através de sons de animais. Arnott passou a admitir e a defender este comportamento como parte do avivamento em andamento na Igreja do Aeroporto.
Mas John Wimber não se deixou persuadir pela argumentação da liderança da Igreja do Aeroporto de Toronto. Ao fim de 1995 foi dizer a Arnott que eles estavam desligados da Videira. A razão principal segundo Wimber é que não via base bíblica para profecia através de sons de animais emitidos por cristãos em êxtase. A igreja do Aeroporto de Toronto, entretanto, já havia ganhado popularidade suficiente para se manter sozinha. Na verdade, tornou-se o centro de um movimento que tem ganhado simpatizantes e aderentes de várias denominações pelo mundo afora. 

Os Cultos na Igreja do Aeroporto

Em Agosto de 1996 eu estava no Canadá, e aproveitei a oportunidade para visitar a Igreja do Aeroporto de Toronto. O nome na placa já não tem mais "Videira". O nome agora é Toronto Airport Christian Fellowship ("Comunhão Cristã do Aeroporto de Toronto"). Fui para os cultos do domingo. A igreja se reune num local enorme, que é muito mais uma quadra poliesportiva coberta, com assentos para perto de duas mil pessoas. No culto do domingo de manhã havia entretanto menos de 800 pessoas, pelas minhas contas. E à noite, cerca de 600.
A ordem do culto é muito simples, e foi a mesma nos dois cultos.. Um período de louvor, que dura cerca de 45 minutos, seguido de avisos. Depois, testemunhos de pessoas que tem experimentado a "bênção". Depois, recolhe-se uma oferta, e segue-se a mensagem, em torno de 45 minutos. E depois vem o período de ministração, quando o pregador e os obreiros oram pelos que vêem à frente, querendo oração. Geralmente os músicos estão tocando, e os obreiros oram com imposição de mãos pelas pessoas, das quais a maioria "cai" para trás, e são aparadas imediatamente pelos "apanhadores". É durante este período enquanto estão deitadas no chão — que eles chamam de "descansar no Espírito" — que recebem visões, ouvem vozes (a voz de Deus, para eles), ou recebem uma "palavra de revelação".
No culto da manhã, um homem atrás de mim começou a falar em línguas. Outras pessoas simplesmente ficaram paradas, com as mãos estendidas para o alto. Uma mulher africana à minha frente começou a tremer incontrolavelmente, e finalmente abriu os braços como se fosse um pássaro gigantesco, e começou a emitir sons como se fosse uma águia. Vários gritos soaram de outra parte do auditório. Uma mulher gritou: "Cantem na minha casa como crianças, diz o Senhor". Ela repetiu esta "profecia" duas ou três vezes. O guitarrista começou a balbuciar, e logo as pessoas se juntaram a ele, produzindo um balbuciar conjunto, não muito alto. Gradualmente o som foi diminuindo, até que finalmente cessou.
O período de louvor à noite não foi diferente, com as mesmas manifestações: gritos, tremores, gesticulação estranha. Mas desta feita, foi seguido de um período de "ministério de cura". O dirigente profetizou que havia alguém no auditório que tinha um tumor, e que o Senhor estava revelando que queria curar aquela pessoa, que ela viesse à frente. Um bom grupo foi à frente, enquanto o guitarrista mantinha um ambiente elétrico e tenso variando em uma única nota da guitarra. A equipe de obreiros veio a frente, e os "apanhadores" se posicionaram atrás das pessoas. Quando a oração pela cura começou, vários cairam, outros começaram a gritar e a tremer. No auditório as pessoas levantavam as mãos, muitas pareciam em transe (como uma mulher ao meu lado). Uma mulher descalça corria e dançava no corredor lateral do local, com um véu branco na mão. A impressão geral que tive foi aquela referida pelo apóstolo Paulo, que se entrasse indoutos no culto dos Coríntios, diriam que estavam todos desequilibrados mental e emocionalmente!
No culto da noite, pregou um dos pastores da Igreja. Após a mensagem ele fez um apelo convidando à frente os que tinham desejo de receber oração. Creio que umas cem pessoas foram à frente. Ao ver a quantidade de pessoas, o pregador chamou todos os "apanhadores" disponíveis, para virem ajudar os que iriam cair. A equipe de obreiros veio à frente, e havia dois para cada pessoa: um na frente, para orar com imposição de mãos, e outro por detrás, para apanhar a pessoa quando caisse. Enquanto o pregador orava, os obreiros impunham as mãos e oravam também, às vezes pegando nas mãos da pessoa. Várias pessoas caiam de costas e eram sustentadas até ao chão, onde ficavam duras, aparentemente sem sentidos, ou tremendo, ou relaxadas. Outras permaneciam de pé.
Aproximei-me do centro da plataforma para observar melhor. Havia pessoas caídas pelo chão, umas imóveis, olhos fechados, outras tremendo, outras tentando se levantar sem conseguir. Outras pessoas que estavam em pé tremiam ou gesticulavam de forma estranha. Gritos e gemidos se ouviam. Uma mulher começou a chorar convulsivamente. Um moço começou a tremer e a gritar horrivelmente, e foi acudido por alguns obreiros. Uma mulher, que estivera correndo e dançando com um véu na mão estava caida no chão, o corpo enrijecido, os braços rígidos levantados para o céu.

A teologia do Movimento

Para John Arnott, o centro do movimento em sua igreja é uma nova apreensão do amor do Pai por parte dos cristãos. Conhecer o amor de Deus Pai e espalhá-lo é o lema do movimento. Neste contexto, não há muito espaço no movimento para se falar em culpa, juízo, pecado e castigo, e muito menos na ira de Deus. Procura-se criar um ambente em que as pessoas possam experimentar e expressar este amor de Deus com toda a liberdade - inclusive caindo no chão, tremendo, e gargalhando, reações que são vistas como um extravasar da alegria no Espírito que inunda a alma dos que foram alcançados.
Segundo Arnott, cada avivamento histórico teve uma ênfase característica. O avivamento pentecostal, no início do século, teve (e tem) como característica marcante a ênfase nos dons espirituais. A característica do avivamento de Toronto, segundo Arnott, é a ênfase no amor de Deus, e na alegria que ele produz na vida dos seus filhos. 
Arnott está consciente de que coisas estranhas e bizarras estão acontecendo em sua enorme congregação. Mas ele tem várias justificativas para elas. Arnott procura mencionar textos das Escrituras para apoiar as reações físicas. Por exemplo, relatos bíblicos de como pessoas, diante da atividade extraordinária de Deus reagiram de forma incomum, caindo no chão, tremendo, perdendo as forças. Os casos preferidos são: Abraão (Gn 17.3), o povo diante do fogo de Deus (Lv 9.24), Saul (1 Sm 19:24-25), Ezequiel (Ez 1.28; 3.23), Daniel (Dn 10.7-8), os apóstolos no monte da transfiguração (Mt 17.6), e o apóstolo João na ilha de Patmos (Ap 1.17-18). Em todos estes casos, houve reações físicas diante da manifestação da presença de Deus, argumenta Arnott. Portanto, não se pode proibir que elas ocorram, quando Deus está presente.
Não somente isto, Arnott também cita exemplos dos avivamentos históricos, em que pessoas, durante os cultos públicos, igualmente cairam no chão, tremeram, entraram em transe, interromperam o pregador aos gritos, etc. Uma de suas citações prediletas é de um livro de Jonathan Edwards, onde o famoso puritano americano narra experiências de várias pessoas durante o avivamento ocorrido em Northampton, na Nova Inglaterra, no século XVIII. Algumas delas, narra Edwards, chegaram a cair durante a pregação da Palavra; outras, entraram em transe, e ainda outras prorromperam em gritos de angústia. Arnott também está a par de reações físicas durante a pregação de João Wesley e George Whitefield durante o Grande Avivamento na Inglaterra, no século XVIII. Citando estes exemplos, Arnott procura colocar a "bênção de Toronto" como sendo similar aos avivamentos históricos acontecidos no passado.
O ponto é que, para Arnott, não podemos limitar o Espírito, nem proibir reações à sua operação na vida dos crentes. Não sabemos como o Espírito opera, continua ele, e seria temerário colocar barreiras ao que parece ser a sua atuação. Para ele, o que está acontecendo no movimento nada mais é que a repetição de fenômenos religiosos acontecidos através da história da Igreja cristã, em épocas de grande intensidade espiritual; embora esteja pronto a admitir que pessoas imitando animais, como profecia encenada, é a contribuição singular da "bênção de Toronto".

Avaliação

Muitas pessoas ao redor do mundo têm dado testemunho de que têm sido abençoadas através do movimento da "bênção de Toronto". Um exemplo é o professor de teologia Clark Pinnock, que num recente (e polêmico) livro sobre o Espírito Santo reconhece seu débito para com o movimento.(7) No geral, estas pessoas testemunham de uma renovação em suas vidas do amor e da alegria cristãs, e de um compromisso maior com a vida cristã. Só podemos receber com alegria o crescimento destas pessoas na vida cristã. 
Recomendamos também a ênfase do movimento no amor de Deus, e na necessidade da alegria na experiência cristã. Certamente precisamos mais e mais experimentar esta alegria, e dar testemunho ao mundo do gozo que temos em Cristo Jesus. Ao mesmo tempo, devemos cautelosamente indagar qual o preço que está sendo pago para isto, e se, ao final, vale a pena tomar este caminho para a renovação individual e da Igreja.
Por outro lado, a teologia de John Arnott é explicitamente influenciada por carismáticos como Benny Hinn, Howard Rodney-Brown, e Kathryn Kuhlman, e portanto, sofre das mesmas deficiências que caracterizam a teologia neo-pentecostal, como a abertura para revelações diretas que se tornam, ao lado da Bíblia, uma segunda regra de fé e prática. Some-se a isto a ênfase nas experiências pessoais, e a tendencia para receber como divino tudo que tem aparência do sobrenatural, sem o estabelecimento de critérios adequados que ajudem a fazer distinção entre o divino, humano, e demoníaco.
O movimento da "bênção de Toronto" faz parte do que tem sido chamado de reavivalismo moderno, em distinção aos avivamentos históricos dos séculos passados. Debaixo da influência de Charles Finney, os evangélicos do século passado até nossos dias passaram a ver avivamento como algo produzido diretamente pelo esforço organizado de igrejas ou denominações. Avivamento, dizem, é o resultado do emprego adequado dos métodos certos. Nesta moldura teológica, os que desejam avivamento empregam todos os meios possíveis para produzi-lo, em contraste ao espírito dos antigos, que consideravam avivamento como obra soberana de Deus, pela qual poderiam orar, mas jamais produzir. 
Avivamentos genuinos são produzidos pelo Espírito Santo, mas historicamente nenhum deles tem sido totalmente livre de excessos, erros teológicos, atitudes carnais, e espírito faccioso, devido ao fato que eles ocorrem entre nós, pecadores. Em toda obra divina, Satanás vem colocar seu dedo, e promover a confusão -- para não falar da contribuição da nossa natureza corrompida. Por este motivo, durante períodos de intensa atividade religiosa e despertamento espiritual, pastores e líderes conscientes destes fatos quase sempre procuraram manter vigilância. A busca ansiosa e desesperada pela "unção", por avivamento, e pela manifestação do sobrenatural, acaba por abrir uma porta, pela qual fogo estranho pode entrar. Não é impossível que isto tenha ocorrido, em alguma medida, com os iniciadores do movimento de Toronto.
O que dizer do fato que a Igreja do Aeroporto de Toronto tem uma confissão de fé evangélica? Se por um lado isto nos tranqüiliza, por outro, traz imensa preocupações, pois o grande problema hoje com movimentos neopentecostais nascidos dentro do evangelicalismo não é que eles contradizem as doutrinas centrais da ortodoxia evangélica, mas sim que lhes dão lugar secundário, e que lhes acrescentam crenças e práticas, que não são fruto de estudo e interpretação bíblicos (como as doutrinas confessionais), mas de experiências e mesmo revelações. No fim das contas, a teologia e a prática acabam sendo controladas por experiências, visões, sonhos, e revelações através de profetas, coisa comum no dia a dia dos membros desta igreja, e de outras igrejas neopentecostais.
A justificativa apresentada para os fenômenos físicos não é convincente. Nos exemplos bíblicos citados por Arnott e outros líderes, as pessoas cairam prostradas sobre seus rostos, diante da manifestação extrarodinária da glória de Deus. Se Deus se manifestasse em nossos dias desta forma, esperaríamos reações semelhantes. Mas não é isto que ocorre no movimento. As pessoas começam a cair, rir, chorar, tremer, pular e imitar animais sem qualquer manifestação especial da glória de Deus. Em muitos casos, não há nem mesmo pregação! Ví pessoas tremendo e caindo já no período inicial de louvor. 
A verdade é que não existe justificativa bíblica para "cair" no Espírito, rir no Espírito, e imitar sons de animais. Não lemos destas coisas ocorrendo com os crentes da Igreja apostólica, no livro de Atos, nem há qualquer referência a estas manifestações nas cartas escritas pelos apóstolos às comunidades do primeiro século. Se estas coisas acompanharam a Igreja apostólica, e eram para ocorrer através dos séculos na Igreja cristã, é estranhos que não há qualquer referência, orientação, ou instrução, da parte dos apóstolos a este respeito.
Fazer referência aos fenômenos físicos ocorridos nos reavivamentos históricos também não justifica. Aqueles fenômenos foram resultado do impacto da pregação profundamente bíblica, penetrante, quebrantadora, de homens como Wesley, Whitefield e Edwards. Não existe pregação deste tipo no movimento. Não se prega sobre a ira de Deus, o juizo final, os horrores do inferno, a culpa do pecado; em parte, era a pregação sobre estas coisas que levavam as pessoas a cairem prostradas, tal a angústia de seus corações, durante os cultos dos antigos avivamentos. Mas pregações sobre a santidade de Deus, sua ira, e o castigo dos impenitentes não é freqüente no movimento.
Além do mais, os principais líderes dos reavivamentos não encorajavam este tipo de coisas, e eram extremamente cautelosos quanto a comportamentos bizarros e estranhos. O que vemos na "bênção de Toronto" é o contrário, quando este comportamento estranho e anormal é abertamente encorajado por sua liderança. 

Conclusão

Desejo concluir este artigo com algumas observações.
1) Não podemos rejeitar o movimento como sendo algo totalmente do diabo, embora igualmente não possamos descartar o ensino bíblico de que Satanás provoca falsas sensações e experiências religiosas. Existe suficiente Evangelho no movimento para garantir a atuação do Espírito Santo, mas a abertura para fenômenos físicos e novas revelações certamente garantem a possibilidade de falsas experiências, doutrinas e ênfases errôneas. Crentes genuinos que abraçam a experiência e ensinos de Toronto podem estar se expondo ao engano religioso, e suas conseqüências.
2) Embora não possamos negar a possibilidade da ocorrência de fenômenos físicos em resposta à uma obra intensa do Espírito, devemos recusá-los como evidência costumeira desta obra, devido, não somente à sua subjetividade, mas, especialmente, ao fato de que esta posição é biblicamente insustentável. As evidências da obra do Espírito na vida dos crentes e descrentes são descritas em abundância na Escritura, e enfatizam especialmente uma vida santa em obediência à Palavra. Reações físicas estão no geral ausentes. Crentes que experimentam estas reações, como cair, tremer, ficar duro, emitir sons animais, e as consideram como resultado da operação do Espírito em suas vidas, podem estar trilhando o caminho perigoso da ilusão religiosa. Quando estas reações acabarem, serão tentados a reproduzi-las por si próprios.

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Notas
1John G. Arnott, The Father's Blessing (Florida: Creation House, 1995) 5.
2Ibid.
3Ibid., 58.
4Ibid., 59.
5Ibid., 168-169.
6Ibid., 169, 183.
7Clark H. Pinnock, Flame of Love: A Theology of the Holy Spirit (Downers Grove, IL: Intervarsity Press, 1996) 250. É importante observar que Pinnock tem sido bastante criticado pelos evangélicos nos Estados Unidos pelas posições que abraçou neste livro, e em outros, com respeito à Trindade.

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