O Brasil Nasceu Gay

Imagem extraída da publicação do canal Buenas Ideias no Facebook

 

Eduardo Bueno – Canal Buenas Ideias (Youtube)

 

Facebook – postado no dia 28/06/2022

 

“Feliz dia do orgulho gay! A homossexualidade existe desde que o mundo é mundo, em todas as comunidades humanas das quais se tem registro. Muito mais recente do que a homossexualidade é a repressão dessas práticas, que só se tornou sistemática a partir do avanço da Santa Inquisição que, não satisfeita em perseguir só europeus, veio ao Novo Mundo espalhar terror e retrocesso. Em um vídeo antigo do nosso canal, Eduardo Bueno relembra as histórias de homossexuais, travestis, transexuais e hermafroditas dos primórdios do Brasil, presentes tanto nas tribos indígenas como nos grupos dos colonizadores portugueses e espanhóis. Afinal, a luta pela igualdade de gênero e pelos direitos da comunidade LGBT mais e mais é cada vez mais atual - e o canal Buenas Ideias está na chuva para se molhar. Celebre o dia do orgulho gay assistindo nosso vídeo "HISTÓRIA DO BRASIL LGBT" lá no YouTube!”

 

            Hoje quero comentar acerca da postagem do professor de história Eduardo Bueno, também conhecido como “Peninha” o professor “pop”. A imagem da postagem tem como plano de fundo uma foto de manifestantes sobreposta com as cores do arco-íris com a frase “O BRASIL NASCEU GAY”.


Em primeiro lugar é oportuno citar que antes de ser tomado de assalto pelo político e ativista gay Harvey Milk (1930-1978) e seu designer Gilbert Baker (1951-2017) em 1978 nos Estados Unidos, o simbolismo do arco-íris foi e continua sendo usado por judeus e cristãos como o sinal de uma aliança entre Deus e a humanidade nos tempos de Noé. Ainda que no ceticismo ateu exista a negação da existência de um Deus, o fato é que, há aproximadamente 1.600 anos antes de Cristo, Moisés registrou “o arco” como sendo um sinal criado por Deus para recordação da aliança de que nunca mais ocorreria um dilúvio novamente (Gn 9.16). Depois, bem depois, em 1978, as cores do arco-íris apareceram pela primeira vez nas ruas de São Francisco ligadas ao movimento LGBT [1].  Agora, vamos analisar alguns trechos do texto:

 

“A homossexualidade existe desde que o mundo é mundo”

             Tal afirmação é relativa, depende da cosmovisão de quem se depara com ela. Para os cristãos que acreditam que a bíblia é a inerrante palavra de Deus, a princípio não havia homossexualidade; Deus criou macho e fêmea numa dispensação em que o homem não conhecia o bem e o mal, apenas o bem. Cremos que o pecado trouxe consigo tal comportamento e ambos passaram a fazer parte inerente da humanidade após a queda do homem descrita no livro de gênesis. Outro fato interessante a ser pensado é que o antropofagismo e o infanticídio também existem desde que o mundo é mundo, porém, qualquer civilização sensata entende que não são práticas moralmente corretas de serem praticadas, logo, o fato de algo existir “desde que o mundo é mundo” não é argumento empírico para sua aceitação comum.

 

“Muito mais recente do que a homossexualidade é a repressão dessas práticas, que só se tornou sistemática a partir do avanço da Santa Inquisição que, não satisfeita em perseguir só europeus, veio ao Novo Mundo espalhar terror e retrocesso”

            Aqui o professor Peninha afirma que a repressão da prática homossexual é recente e só se tornou sistemática na idade média através da igreja Católica. Ledo engano! Na verdade, suspeito que não seja por falta de saber, já que a postagem vem de uma pessoa reconhecidamente erudita. O fato é que a sistematização dessa “repressão” citada pelo professor existe há pelo menos 1.600 anos antes de Cristo no livro da lei dos judeus, a Torah. Logo se percebe que a narrativa da publicação foi estrategicamente direcionada para ludibriar os incautos e servir de êxtase para os militantes progressistas de plantão.

Outra coisa interessante é a insinuação de que a igreja Católica veio ao novo mundo (apenas) para espalhar terror e retrocesso, sendo que, diferente da música “Índios” de Joge Ben Jor, os índios também não eram santos imaculados. Eles guerreavam uns com os outros, praticavam antropofagismo e infanticídio por questões igualmente religiosas. Não estou com isso defendendo as atrocidades e a morte que os europeus trouxeram para o novo mundo, mas, entendo que é preciso se coerente com todos os fatos ao invés de “lacrar” com uma narrativa unilateralmente militante de meias verdades.


Em suma, sobre a frase “O Brasil Nasceu Gay”, caberia ao professor explicar tal afirmação. Seria com a chegada dos primeiros habitantes na terra? Ou se refere a algum momento específico da história da terra já batizada com o nome Brasil? O que seria esse “nascimento”? Enfim, vago demais para merecer a devida atenção.

 

 

 

[1] https://www.brasildefato.com.br/2021/06/08/como-o-arco-iris-se-tornou-bandeira-lgbt

 Link original da postagem na página Buenas Ideias: https://bityli.com/KkYPeQ

 


Julio Celestino

Vitória, Espírito Santo, 28 de março de 2022.   

Sobrevivendo no Inferno - Uma Reflexão Cristã

 



“Deus fez o mar, as árvores, as crianças, o amor. O homem me deu a favela, o crack, a trairagem, as armas, as bebidas, as prostitutas. Eu? Eu tenho uma bíblia velha, uma pistola automática e um sentimento de revolta. Eu estou tentando sobreviver no inferno.” - Mano Brown 

 

 

 

APRESENTAÇÃO

 

     O texto a seguir é uma breve reflexão da primeira faixa do disco Sobrevivendo no Inferno dos Racionais Mc’s através de uma cosmovisão cristã. Sua estrutura está dividida em cinco pontos: 1) Daquilo que Deus deu; 2) Daquilo que o homem deu; 3) Daquilo que eu tenho; 4) Da condição e 5) Considerações finais e verdades fundamentais. Os texto bíblicos utilizados são da tradução bíblica Almeida Corrigida Fiel. Boa leitura! Que Deus te abençoe!

 

 

1) DAQUILO QUE DEUS DEU.

 

     Essa introdução é a uma transcrição da faixa "Gênesis" contida no álbum “Sobrevivendo no Inferno” do grupo de rap nacional Racionais Mc’s, lançado em 1997. Boa parte das músicas do Racionais Mc's me fazem refletir sobre o conhecimento epistemológico incrível que é adquirido através da experiência de vida. Com a frase “fale o que quiser, o que é, é!” [1], Pedro Paulo Soares Pereira (Brown) acerta em cheio na questão de falar do que se conhece na prática. No início de um dos álbuns mais relevantes do grupo, Brown inseriu uma verdade que para muitos se tornou relativa, a saber: “no princípio criou Deus os céus e a terra”. Aqui ele confessa sua fé em um único Criador, que através da sua Palavra criou tudo aquilo que existe na natureza. Brown enumera quatro coisas de forma resumida para transmitir a mensagem de que tudo o que Deus criou é perfeito, justo e bom. O belo e imenso mar com toda sua variedade de vida; as árvores que geram o ar que respiramos. E o que dizer das crianças? É oportuno reproduzir o que Deus diz sobre elas: “... da boca dos pequeninos e das criancinhas de peito tiraste perfeito louvor” (Mt 21.16); “em verdade vos digo que, se não vos fizerdes como meninos, de modo algum entrarão no reino dos céus” (Mt 18.3). No primeiro versículo, Jesus declarou que dos pequeninos e das crianças de peito se pode tirar o perfeito louvor. Este é um texto frequentemente lembrado ao ouvir o som de uma criança cantando louvores à Deus, porém, como podemos assimilar uma criança de peito ao perfeito louvor? As respostas dos teólogos podem ser variadas, porém, quero expor minha própria percepção sobre tal louvor. O salmo 19.1-6 nos ensina que a natureza louva ao Senhor. Assim como o culto da natureza, nada poderia ser mais natural que a união de um homem e uma mulher para gerar uma vida! O homem moderno está dotado de capacidade para criar coisas incríveis como computadores, smartphones, aeronaves, carros e mais uma infinidade de aparatos tecnológicos, ele, porém, com todo seu conhecimento e tecnologia é incapaz de criar uma vida humana, a não ser que esta seja gerada pelas normas preestabelecidas por Deus: a união entre homem e mulher. Em suma, a criança de peito é uma dádiva milagrosa de Deus para o homem; seu respirar despreocupado e dependente dos pais constitui-se naturalmente um perfeito louvor ao criador dos céus e da terra, pois somente Ele é capaz de conceder-nos este dom. De alguma forma, tão importante quanto o mar e as árvores, Brown cita as crianças como obra-prima de Deus. Por fim, ele cita o amor que Deus nos deu, afinal, "quem não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor" (1Jo 4.8). Paulo afirma em sua carta: "Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine. E ainda que tivesse o dom de profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse amor, nada seria" (1Co 13.1,2). O amor é tudo! Feliz é quem ama! Disse o cantor Ozéias de Paula [2]. É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã, cantou Renato Russo [3].  Seja norte ou sul, céu ou  terra, o amor permanece perfeito, belo, humilde e necessário. O amor de Deus é altruísta, capaz de entregar o bem mais precioso pela vida de outrem, e foi exatamente isso que ele fez há aproximadamente 2.000 anos atrás; "Deus amou o mundo de tal maneira que deu seu filho unigênito para que todo aquele que nele crer não pereça, mas tenha vida eterna" (Jo 3.16). Este mesmo Deus deixou um mandamento de amor para a coroa da sua criação, a saber: "amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todas as tuas forças, e de todo o teu entendimento, e ao teu próximo como a ti mesmo" (Lc 10.27). Com isto, concluo que pelo amor, Deus criou tudo perfeito para sua glória e nosso deleite, mas, nas palavras de Brown, o homem nos deu “outras” coisas.

 

 

2) DAQUILO QUE O HOMEM DEU.

 

     O homem me deu a favela. De 2015 a 2021, eu tive o privilégio de trabalhar na segurança patrimonial do aeroporto de Vitória/ES. Do pátio de manobras de aeronaves eu admirava uma paisagem que me trazia profunda reflexão. No lado esquerdo da paisagem havia um conglomerado de prédios que agregam bairros como Jardim Camburi, Praia do Canto, Jardim da Penha e praia Camburi; todos equipados com infraestrutura impecável. Do lado direito da paisagem, havia um outro conglomerado, porém, de morros que abrigam bairros de periféricos como São Benedito, Bairro da Penha, Bonfim, Consolação, Floresta e etc. Todos de infraestrutura precária. Era impressionante ver com os meus próprios olhos, todos os dias, durante seis anos, que numa mesma cidade que carrega “vitória” em seu nome  existem dois povos distintos, dois grupos com contextos completamente diferentes. A criança da favela, como eu fui, vive num modo específico de vida que as pequeninas de bairro nobre desconhecem. Ver políciais prendendo seus conhecidos de tempos em tempos é algo absolutamente normal para a criança periférica; ela também aprende que deve sair de casa com o documento no bolso para que facilite o trabalho da polícia caso seja abordada numa "batida" a caminho da padaria. Ouvir tiros, fogos dia e noite tornou-se algo comum; assim como era corriqueiro assistir a cena de uma concentração de pessoas do bairro em volta de um corpo ensanguentado no chão da rua. Isso acontecia porque periodicamente recebíamos a notícia: “mataram alguém ali na rua de baixo!”. Os moradores geralmente iam conferir se era um parente ou conhecido. Hoje a fatalidade permanece a mesma, porém, sabemos quem é “a bola da vez” através  das redes sociais. Tais características periféricas são amplamente desconhecidas da civilizada e refinada parte esquerda da paisagem. As crianças dessa parte da cidade estão sendo bem preparadas em seus sofisticados colégios particulares, cursos de inglês com intercâmbio, Ifood, Mclanche Feliz, passeios e viagens; rotina totalmente desconhecida dos pequenos periféricos. Toda essa comparação é para acentuar as características do ambiente chamado de favela, moradia que o homem nos deu, símbolo da desigualdade social urbana, "terra onde os meninos viram homem mais cedo", disse um MC [4].

 

O Crack. Atinge os ricos, mas, principalmente a periferia. Milhares de famílias sofrem com a presença de um parente viciado nesta droga. O dependente faz de tudo para saciar seu desejo de usá-la, neste caso, cabe a afirmativa de Edi Rock: “do que o ser humano é capaz, você não acredita” [5].

 

A trairagem. O inimigo oculto é mais perigoso do que o anunciado. A trairagem sempre vem de uma pessoa que você não espera, alguém que você conta como um dos teus; caso contrário, seria apenas um ataque inimigo. Numa guerra podemos ser atingidos de pelo menos três formas diferentes: pelo inimigo (diretamente), ser atingido por um ataque a esmo ou ser atacado por um aliado. De todos os ataques possíveis, sem dúvida, o mais dolorido para o corpo e  alma é o fogo amigo; essa espécie de ataque atinge profundamente as duas dimensões de nosso ser. Há muito tempo atrás, Davi, rei de Israel, experimentou essa dor quando registrou o Salmo 55.12-14 declarando: “Não é meu inimigo que me insulta; se fosse eu poderia suportar. Não são meus adversários que se levantam contra mim; deles eu poderia me esconder. Antes, é você, meu igual, meu companheiro e amigo chegado. Como era agradável a comunhão que desfrutávamos quando acompanhávamos a multidão à casa de Deus”. Até o homem mais importante que já pisou nesta terra desde sua fundação, também sofreu com o que a faixa chama vulgarmente de trairagem. Jesus Cristo aos trinta anos de idade iniciou seu ministério evangelístico, selecionando doze discípulos que após sua morte se tornaram apóstolos. O sucesso de Jesus fez com que os líderes religiosos de Israel tornassem teus vitais inimigos, tais homens procuraram matá-lo por diversas vezes, até que num dia fatídico, seu discípulo e tesoureiro, Judas Iscariotes, o vendeu para seus algozes por apenas 30 moedas de prata. Ao ter sua oração no Getsêmani interrompida abruptamente pelos soldados e sacerdotes que vieram prendê-lo, Jesus avista seu amigo entre seus inimigos: “E o que o traía tinha-lhes dado um sinal, dizendo: O que eu beijar é esse; prendei-o. E logo, aproximando-se de Jesus, disse: Eu te saúdo, Rabi; e beijou-o. Jesus, porém, lhe disse: Amigo, a que vieste? Então, aproximando-se eles, lançaram mão de Jesus, e o prenderam.” (Mt 26.48-50). Após isto, você certamente conhece a história. Podemos concluir que nem Jesus, Davi, Brown, eu e você estamos livres e seguros da trairagem que, como diz a introdução, “o mundo nos deu”, não Deus.

 

As armas. Yin e Yang, segundo a filosofia chinesa, é o símbolo de duas energias opostas e complementares. De acordo com a introdução, as armas também nos são oferecidas pelo homem, e semelhante ao Yin e Yang, nelas há uma dualidade entre bem e mal. Trocando em miúdos, elas podem servir tanto para o bem (defender-se de uma injusta agressão) quanto para o mal, porém, em ambos os lados, seus usuários precisam recorrer à violência para atingir o fim desejado. Até nos tempos mais remotos do Brasil, quando essa terra fértil era chamada de Abia Yala, o mesmo arco e flecha que era usado para caçar o alimento da família também era utilizado para assassinar índios de tribos rivais em eventuais guerras. Continuo acreditando que elas podem ser usadas tanto para o bem quanto para o mal, porém, num mundo pós-iluminismo onde tudo (ou quase tudo) é relativo, resta-nos definir em particular interpretação aquilo que é bom e o que é mau, por exemplo, no inferno de Brown (periferia), muitos favelados portam suas armas seguindo avante em aventuras de um verdadeiro Grand Theft Auto Brazil, assaltando e cometendo latrocínio procurando saciar o desejo incontrolável da vaidade hedonista pensando estarem fazendo o bem; e isso não é apenas na visão própria dos sujeitos, mas também no conceito de alguns psicopatas de palanque canhoto-político com diploma acadêmico. A verdade é que não há verdade absoluta num mundo prostrado aos pés do relativismo moral, mesmo sabendo os honestos que tal sentença já se constitui naturalmente uma verdade quando proferida por seus defensores. Seja qual fors sua opinião, fato é que o bem e o mal existem e as armas também; como reza a introdução,  “o homem nos deu”, não Deus.

 

As bebidas. De acordo com o Instituto Nacional do Câncer, a ingestão de bebidas alcoólicas é um fator de risco gravíssimo para o surgimento de vários tipos de doenças. Quanto maior é o tempo de consumo, mais chances o indivíduo tem de sofrer com câncer de boca, laringe, estômago, dentre outros. A bebida gera lesões no fígado e afeta o cérebro, além da mudança de comportamento [6]. Grande parte da população brasileira já sofreu ou tem conhecimento de pessoas que têm ou tiveram alguma experiência frustrante com o álcool agindo no seio da família. Brigas, abusos, separações, mágoas, assassinato, acidentes e etc. Mesmo diante desse cenário, vemos que é difícil resistir ao apelo midiático pró-álcool. Isso porque depois dos famosos e banidos comerciais de cigarros, os comerciais de cerveja são os mais populares e divertidos nos meios de mídia existentes. Um estudo realizado pela pediatria do Hospital Universitário da USP apontou que 60% dos adolescentes, na faixa dos 17 anos, já faz uso de bebidas alcoólicas. De acordo com a pesquisa, o consumo começa por volta dos 10 anos [7]. Outra informação importante foi divulgada pela Organização Mundial da Saúde: mais de 320 mil pessoas entre 15 e 29 anos morrem ao redor do mundo, anualmente, de causas relacionadas ao consumo de álcool [8].  A Palavra de Deus nos adverte que “o vinho é zombador e a bebida fermentada provoca brigas; não é sábio deixar-se dominar por eles” (Pv 20.1). Em outra passagem, o apóstolo Paulo adverte: “e não vos embriagueis com vinho em que há dissolução, mas, enchei-vos do Espírito.(Ef 5.18). Se embriagar-se com vinho causa tanta destruição para humanidade anualmente, imagine como seria se ao invés disso todos fossem cheios do Espírito Santo? É o desejo de Deus!

 

Mas, voltando à realidade, conforme disse Brown, o homem nos deu a bebida, produto da metáfora da vinha de Noé. Segundo a lenda contida no Midrash dos judeus, Noé plantou uma vinha e o diabo teria se aproveitado da situação matando quatro animais, um cordeiro, um leão, um porco e um macaco, derramando o sangue deles nas raízes da vinha. O efeito do álcool no nosso cérebro seria, segundo o Midrash, resultado disso. Um pouco de vinho nos deixa como um cordeiro: mais inocentes, mais dóceis, mais amistosos. Ao bebermos um pouco mais, nos sentimos fortes como um leão, mais audaciosos e orgulhosos. Se formos um pouco mais além da conta, agimos como porcos, rolando no chão. O exagero, em compensação, faz com que nos comportemos como macacos fazendo todo tipo macaquices sem nenhum juízo.

 

As prostitutas. Nas palavras de Edi Rock: “qual é a fita, a treta, a cena? A gente reza, foge e continua sempre com os mesmos problemas. Mulher e dinheiro tá sempre envolvido, vaidade ambição, munição pra criar inimigo” [9]. "Mulher e dinheiro, dinheiro e mulher, quanto mais você tem, muito mais você quer", diz Ice Blue em Estilo Cachorro.  

 

Se Jesus Cristo considerou o dinheiro um deus (Mamom), com certeza as prostitutas são suas sacerdotisas sacras. Homens notáveis, ricos e poderosos caíram em desgraça por entregarem-se de corpo e alma no altar da idolatria sexual. No livro de Números encontramos a história de que certa vez, numa campanha pela terra prometida (Canaã), o exército israelita encontrava-se acampado nas campinas de Moabe, além do Jordão, na altura de Jericó. Um homem chamado Balaque, rei dos Moabitas, com medo de ser destruído pelos israelitas, contratou um profeta chamado Balaão para amaldiçoar o povo de Israel a fim de que eles perdessem a benção de Deus sobre suas vidas e consequentemente as batalhas. Por três vezes Balaão tentou amaldiçoar Israel, porém de sua boca apenas saiam palavras de benção.  Vendo que era impossível amaldiçoar aquele povo, Balaão aconselhou Balaque a seduzir aqueles homens com mulheres sensuais e promíscuas; tiro certeiro que fez com que 24 mil soldados israelitas morressem de praga por terem se entregado no altar da idolatria sexual virando as costas para Deus (Nm 22-24). Mais de três mil anos se passaram e o cenário concernente a isto continua o mesmo, quem não conhece algum homem ou mulher que perdeu sua vida pelo mesmo motivos sexuais? É importante salientar que o termo original usado na faixa dos Racionais é “puta”, não significando essencialmente a profissional do sexo, mas, um modo antiquado e machista de rotular as mulheres que resolvem se comportar sexualmente como os homens de maneira geral sempre se comportaram: se eu quero, faço, para meu prazer. A palavra "puta" foi substituída por "prostituta" para não escandalizar os leitores de ouvidos sensíveis.

 

 

3) DAQUILO QUE EU TENHO.

 

Uma bíblia velha. Dentre tudo aquilo que Deus e o homem o deu, Brown afirma ter em sua posse uma bíblia velha. O que é a bíblia? Segundo o missionário  Eurico Berguistén (1913-1999), Deus ordenou a Moisés: “Escreve isto isto para memória num livro” (Êx 17.14). Essa mesma ordem foi repetida ao longo de 1.600 anos para cerca de 45 homens escolhidos por Deus, e assim surgiu “o livro do Senhor” (Is 34.16), a “Palavra de Deus” (Ef 6.17; Mc 7.13), as “Santas Escrituras” (Rm 1.2), que nós chamamos de bíblia [10]. Brown chama sua bíblia de velha pelo estado ou talvez, pelo tempo de aquisição, sobre isso, acertadamente Billy Graham afirma que a bíblia é mais atual do que o jornal de amanhã; D. L. Moody complementa dizendo que as Escrituras não foram dadas para aumentar nosso conhecimento, mas para mudar nossa vida; e Charles Spurgeon finaliza dizendo que a bíblia que cai em pedaços é de alguém que está inteiro. Nem tudo o que é novo é bom, há coisas que são como o vinho, quanto mais antigo, melhor. Sobre isto, a bíblia mostra sua utilidade em trazer paz e esperança para nossas vidas, ainda que seus escritos sejam milenares. A vida é efêmera diante da Palavra de Deus, seja o  livro velho ou não; o apóstolo Pedro registrou em sua carta: “Porque Toda a carne é como a erva, E toda a glória do homem como a flor da erva. Secou-se a erva, e caiu a sua flor; Mas a palavra do Senhor permanece para sempre. E esta é a palavra que entre vós foi evangelizada.” (1Pe 1.25,26).  Jesus Cristo também deixou bem claro que até mesmo os céus e a terra são perecíveis diante da eterna Palavra de Deus: “O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não hão de passar.” (Mt 24.35). Uma bíblia velha em mãos dispostas e humildes pode revolucionar o mundo inteiro com a chama da sua verdade eterna.

 

Uma pistola automática. De modo figurado, a Palavra de Deus é chamada de espada e escudo na bíblia, pois ela serve tanto para atacar quanto para se defender. Fato é que as armas e armaduras vindas de Deus são espirituais, porque não temos que lutar contra a carne e o sangue, mas, sim, contra os principados, contra as potestades, contra os príncipes das trevas deste século, contra as hostes espirituais da maldade, nos lugares celestiais (Ef 6.12). Uma pistola automática assim como qualquer outra arma de fogo também pode ser usada tanto para atacar quanto para se defender, porém, ela jamais terá utilidade para salvar a alma de um pecador. Ela também é inútil na batalha contra os principados, potestades e contra o príncipe das trevas nos lugares celestiais. Contudo, Brown não estava vivendo especificamente nos lugares celestiais, na verdade, ele e seus pares estavam tentando “sobreviver no inferno”, sejam seus métodos de sobrevivência moralmente corretos ou não.

 

Um sentimento de revolta. A terceira faixa do álbum Sobrevivendo no Inferno (1997) nos faz entender um pouco sobre a origem deste sentimento de revolta quando afirma que 60% do jovens de periferia sem antecedentes criminais já sofreram violência policial; a cada quatro pessoas mortas pela polícia três são negras; nas universidades brasileiras apenas 2% dos alunos são negros; a cada quatro horas um jovem negro morre violentamente em São Paulo; aqui quem fala é Primo Preto mais um sobrevivente (trecho da faixa Capítulo 4, Versículo 3 de Sobrevivendo no Inferno).

 

No livro Sobrevivendo no Inferno editado pela Companhia das Letras (2018) encontramos um fragmento do contexto no qual este sentimento de revolta se nutria: “Em 2 de outubro de 1992, São Paulo foi palco daquela que é considerada a mais violenta e brutal ação da história do sistema prisional brasileiro: o massacre do Carandiru, intervenção assassina da Polícia Militar do Estado de São Paulo que resultou na morte de pelo menos 111 detentos, a maioria composta de réus primarios, sem nenhuma chance de defesa. Exterminio puro e simples que até hoje não foi reconhecido pelo Estado quanto tal - documentos oficiais tratam o episódio como “rebelião” ou “motim” do pavilhão 9. Num intervalo de poucos meses, o país foi palco de outros dois massacres que chocaram o mundo. Em 23 de julho de 1993, quatro policiais militares dispararam contra cerca de cinquenta crianças e adolescentes em situação de rua que dormiam nas escadarias da igreja da Candelária, no Rio de Janeiro , deixando oito mortos e dezenas de feridos, num episódio que ficou conhecido como chacina da Candelária (...)”. A violência, o preconceito, a desigualdade social, o racismo dentre outras coisas injustas que a população periférica dos Brasil sofrem foi pivô deste sentimento de revolta.

 

 

4) DA CONDIÇÃO.

 

Eu estou tentando sobreviver no inferno. Sem muitas apresentações do inferno de Brown, o primeiro trecho da música “Minha Oração” do cantor de rap gospel, Pregador Luo, descreve de modo sucinto e condensado o inferno que milhares de brasileiros vivem até hoje:

 

“Uma boca em cada esquina, homens bêbados no bar

Periferia é assim em qualquer quebrada que se vá

Cenas, ruídos, sons bem conhecidos

Por todos que as habitam podem ser ouvidos

A noite é sinônimo de sigilo

Guarde segredo de tudo que você vê ou pode levar um tiro

Carros sendo desmanchados ou por pó trocados

Corpo baleado, de bruço no asfalto gelado

Sangue espalhado pra tudo que é lado

Noiado, caloteiro, traficante, dedo mole não perdoa

O gueto é assim, quem não é cabelo avoa

Morte à toa, o grito ecoa, errou na escolha

Partiu mais cedo, podia tá na boa

Tem muito pai morrendo sem ver seu filho crescer

Pra muitos por aqui não haverá amanhecer

Mas eu continuo orando pela salvação dos meus manos”

 

O cenário de Sobrevivendo no inferno é da década de 90, mas a triste realidade permanece, milhares de sobreviventes continuam na batalha pela vida.

 

 

5) CONSIDERAÇÕES FINAIS E VERDADES FUNDAMENTAIS

 

O álbum Sobrevivendo no Inferno certamente foi um marco na história do rap nacional, milhares de homens e mulheres de todas idades se identificaram com a realidade narrada pelos quatro jovens de São Paulo. Todos procuravam um lugar ao sol, assim como tentavam encontrar a fórmula mágica da paz. Com seu conhecimento empírico na maioria dos casos, os quatro jovens narraram aquilo que viam e viviam no inferno periférico. Em suas entrevistas, confessam ter errado em sentenças, letras e em muitas atitudes pessoais assim como todo ser humano. Entre erros e acertos, fato é que são um sucesso até hoje.

 

Por diversos motivos, a cosmovisão e o estilo de vida dos Racionais Mc’s não é um modelo cristão a ser seguido, por isso, ao invés de finalizar com possíveis verdades desses quatro jovens sensacionais, concluo apresentando sete verdades bíblicas fundamentais:

 

1. Tudo que Deus faz é justo, santo e bom. (Dt 32.4; Sl 33.5)

2. Tudo que o homem faz, bem ou mal, está manchado pelo pecado. (Gn 8.21; Rm 3.10-18)

3. A maldade que existe em nosso mundo é por causa do pecado. (Rm 6.23)

4. Não existe “fórmula mágica da paz”, apenas Jesus Cristo pode proporcionar ao homem a verdadeira paz e seu sangue vertido é o único meio de salvação do pecador. (Rm 4.8)

5. Apesar de vivermos em um mundo cheio de violência, injustiças e desigualdade, aqui não é o inferno. Tal lugar existe e sua condição é eterna, ele foi inicialmente preparado para Satanás e seus anjos. (Lc 16.19-31; Mt 25.41)

6. Nenhuma ideologia política pode trazer plena paz para a humanidade, isso acontecerá quando Jesus Cristo retornar em sua segunda vinda para estabelecer seu reino eterno. (Is 65.19-25)

7. A verdade existe, é divina e absoluta. (Jo 14.6)

 

 

Que Deus abençoe a todos os sobreviventes do nosso Brasil.

 


 

 

REFERÊNCIAS

 

[1] Estilo Cachorro, álbum: Nada como um dia após o outro dia, Racionais MC's.

[2] O Amor é Tudo, álbum: O amor é tudo, Ozéias de Paula

[3] Pais e Filhos, álbum: As Quatro Estações, Legião Urbana.

[4] Triunfo, álbum: Para quem já mordeu um cachorro por comida, até que eu cheguei longe, Emicida.

[5] Expresso da Meia-Noite, álbum: Nada como um Dia após o Outro Dia, Racionais MC’s

[6] https://www.inca.gov.br/causas-e-prevencao/prevencao-e-fatores-de-risco/bebidas-alcoolicas < Acesso em 07/06/2022 >

[7] https://newslab.com.br/alcoolismo-estudo-mostra-que-60-dos-adolescentes-na-faixa-dos-17-anos-ja-consomem-alcool/#:~:text=Um%20estudo%20realizado%20pela%20Pediatria,uso%20ultrapassa%20uma%20dose%20di%C3%A1ria. < Acesso em 07/06/2022 >

[8] https://www.alcoolparamenoreseproibido.sp.gov.br/males-do-alcool/#:~:text=O%20uso%20abusivo%20do%20%C3%A1lcool,relacionadas%20ao%20consumo%20do%20%C3%A1lcool. < Acesso em 07/06/2022 >

[9] A vida é um desafio, álbum: Nada como um Dia após o Outro Dia, Racionais Mc's.

[10] Bergstén; Eurico, Teologia Sistemática, editora CPAD,  RJ. 1999: p.10.



Julio Celestino

8 de Junho de 2022, Vitória, Espírito Santo.

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